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Terça-feira, Abril 07, 2009

Índice

A OBEDIÊNCIA DE CRISTO

Havia uma glória invisível em tudo o que Cristo fez e sofreu na terra. Se as pessoas a tivessem visto, elas não teriam crucificado o Senhor da glória. Entretanto, aquela glória foi revelada a alguns; os discípulos “viram a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1.14).
Primeiro, vamos considerar a obediência de Cristo naquilo que Ele fez. Ele livremente escolheu obedecer. Ele disse: “Eu vim pra fazer a tua vontade, ó Deus”, antes de haver necessidade para Ele fazer essa vontade. Ele não era como nós, criaturas humanas, que necessariamente sempre estivemos sujeitos à lei de Deus. João Batista sabia que Jesus não tinha necessidade de ser batizado. Mas Cristo disse: “Deixai por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.15). Cristo voluntariamente Se identificou com os pecadores quando foi batizado.
Deus deu-Lhe honra e glória porque, pela Sua obediência, a Igreja toda se tornou justa (Rm 5.19). A obediência de Cristo a
cada parte da lei foi perfeita. A lei era gloriosa quando os Dez Mandamentos foram escritos pelo dedo de Deus. Ela se torna mais gloriosa ainda quando é obedecida nos corações dos crentes. Mas é apenas na mais absoluta e perfeita obediência de Cristo que a santidade de Deus na lei é vista em sua glória total. “Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” (Hb 5.8). O Senhor de todos, que fez a todos, viveu em estrita obediência possui a glória de Sua singularidade.
Ora, considerem a glória da obediência de Cristo demonstrada naquilo que Ele sofreu. Ninguém jamais pode medir a profundidade dos sofrimentos de Cristo. Podemos olhar para Ele sob o peso da ira de Deus, em Sua agonia o suor de sangue, nos Seus fortes gritos e lágrimas. Podemos olhar para Ele orando, sangrando, morrendo, fazendo da Sua alma uma oblação pelo pecado. “Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo de sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo foi ele atingido” (Isa 53.8). “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos” (Rm 11.33). Quão glorioso é o Senhor Jesus aos olhos dos seus redimidos.
Por causa do pecado de Adão, ele e todos os seus descendentes se acham diante de Deus sujeitos a perecer eternamente sob a ira de Deus. Enquanto, nessa condição o Senhor Jesus vem até os pecadores persuadidos, com o Seu convite: “Porque criaturas! Como é triste a sua condição! O que aconteceu com a beleza da glória e da imagem de Deus nos quais vocês foram criados? Vocês agora têm a imagem deformada de Satanás; pior que isso, miséria eterna aguarda vocês. No entanto, olhem para cima uma vez mais; contemplem-Me” Eu me colocarei em seus lugares. Eu suportarei o peso da culpa e a punição que jogaria vocês para sempre no inferno. Eu me tornarei, temporariamente, em maldição para vocês, para que possam ter bem-aventurança eterna”.
Contemplemos a glória demonstrada no evangelho: Jesus Cristo é crucificado diante dos nosso olhos (Gl 3.1). Nós só entendemos as Escrituras à medida que vemos nelas o sofrimento e a glória de Cristo. A sabedoria do mundo não vê nada neles a não ser estultícia. “Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2Co 4.3-4).




índice - John Owen


Quinta-feira, Setembro 07, 2006

A Promessa de Deus e o Dever Cristão - John Owen

Em Romanos 8.13 o apóstolo Paulo confronta seus leitores com duas maneiras deferentes de se viver.

A primeira é esta: “se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte”.

A segunda – a alternativa é - : “
se pelo Espírito mortificardes os efeitos do corpo, certamente vivereis”.

O propósito deste livro é estudar a segunda destas maneiras de viver.
Começaremos o nosso estudo examinando as cinco palavras ou frases que formam o nosso texto:

EM PRIMEIRO LUGAR, o texto começa com a palavra “SE”. Paulo usa este “se” para indicar a conexão entre mortificar os feitos do corpo e o viver. É como se disséssemos a um homem doente: “se tomar remédio, logo se sentirá melhor”.. Ao homem decente se está fazendo uma promessa de melhoria na sua saúde, desde que siga o conselho que é dado. Da mesma maneira, o “se” do nosso texto nos diz que Deus determinou “mortificar os feitos do corpo” como o meio infalível de conseguirmos
“vida”.

Há uma conexão inquebrável entre verdadeiramente mortificarmos o pecado e a vida eterna. “Se... mortificardes o pecado vivereis!” Aqui está a razão para cumprirmos o dever que Paulo nos prescreve.

EM SEGUNDO LUGAR, a palavra “VÓS” nos diz a quem o dever e a promessa se aplicam. “Vós” se refere a cristãos descritos no verso 1 como “os que estão em Cristo Jesus”.

Refere-se àqueles nos quais o Espírito vive (vs. 10,11). É estupidez e ignorância se esperar que qualquer um, exceto um verdadeiro cristão, desempenhe este dever. Se pensarmos cuidadosamente sobre para quem Paulo está escrevendo e o que ele lhes está dizendo, podemos fazer a seguinte afirmação:

“Os verdadeiros cristãos, que
estão definitivamente livres do poder condenatório do pecado, ainda devem se ocupar durante toda a vida com a mortificação do remanescente poder do pecado.”

EM TERCEIRO LUGAR, a frase “PELO ESPÍRITO” se refere à causa principal ou aos meios para cumprirmos esse dever. O Espírito aqui é o mesmo do vs. 11. Ele vive em nós (v.9) e nos dá vida (v.11). Ele é o Espírito de adoção (v.15) e nos ajuda nas nossas fraquezas (v.26). Todos os outros meios de tentarmos mortificar o pecado são inúteis.

As pessoas podem tentar isso de outras maneiras (Rm 9.30-32). Eles sempre o fizeram e sempre o farão. “Mas esta é a obra do Espírito”, diz Paulo. Só Ele pode realizá-la. Mortificar o pecado na sua própria força, segundo as suas idéias, leva à justiça-própria. Isso é a essência de toda religião falsa.

EM QUARTO LUGAR, a frase, “MORTIFICARDES OS FEITOS DO CORPO” nos apresenta o dever a ser cumprido. Consideremos esta frase perguntando e respondendo três perguntas:

a) O que se entendo por “O CORPO”? é uma outra expressão semelhante, no seu significado, à “natureza pecaminosa” (vs. 3,4,5,8,12 e 13 ). Paulo está enfatizando a diferença entre o Espírito e a natureza pecaminosa. O corpo é o instrumento que o pecado inerente em nós usa para se expressar. Desse modo Paulo usa a expressão “o corpo” para representar a corrupção e a depravação do homem.

b) O que significa “OS FEITOS?” Isto se refere Às ações pecaminosas que uma natureza pecaminosa produz. Em Gálatas 5.19 no qual estes atos são descritos, Paulo nos dá alguns exemplos destes “feitos”. A maior preocupação de Paulo não é com os “feitos” externos mas com suas causas internas. É com desinibido desejo mal, o qual produz os feitos que precisamos lidar radicalmente.

c) O que significa “MORTIFICARDES”? Esta é uma linguagem figurada. Imagine que se mate um animal. Matar um animal é tirar-lhe sua força, seu poder e sua vida de tal maneira que ele não possa mais agir ou fazer o que quiser.

Esta é a figura aqui. A natureza pecaminosa (ou, o pecado remanescente) é comparado a uma pessoa, o “velho eu”, com seus recursos, habilidade, sabedoria, sutiliza, força, etc. Isto, diz-nos Paulo, precisa morrer. Precisa ser morto (mortificado ), ou seja, sua força, poder e vida precisam ser tirados pelo Espírito.

Em certo sentido este é um fato que já ocorreu. Diz-se que o velho eu já está “crucificado com Cristo” (Rm 6.6).”Morremos com Cristo” (Rm 6.8). Isto aconteceu quando nascemos de novo (Rm 6.3-8). Entretanto, cada cristão ainda tem os remanescentes de uma natureza pecaminosa que irão constantemente procurar se expressar. É dever de cada cristão mortificar os remanescentes desta natureza pecaminosa. Isto precisa ser feito continuadamente de modo que aos desejos da natureza pecaminosa não seja dada oportunidade para se expressarem. (Gl 5.16).

FINALMENTE, a frase “VIVEREIS” provê a promessa que é dada pra encorajar os cristãos no seu dever. A vida prometida é o oposto da morte enunciada no caso anterior, “se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte” ( veja também Gl 6.8).

É provável que Paulo tenha em mente tanto a vida espiritual em Cristo como a vida eterna. Todos os cristãos verdadeiros têm esta vida mas podem perder seu gozo, ser conforto e sua força. Num contexto diferente, o apóstolo Paulo escreve: “porque agora vivemos, se é que estais firmados no Senhor” (1 Ts 3.8), isto é, agora a minha vida me fará bem; terei gozo e conforto na minha vida. De modo semelhante, o apóstolo está dizendo aqui: “vocês terão uma vida boa, vigorosa, confortável, e espiritual, enquanto estiverem aqui, e receberão a vida eterna ao final”.

Se tomarmos essa promessa desta maneira teremos mais motivos para realizarmos este dever.

A FORÇA, O PODER, E O GOZO EM NOSSA VIDA ESPIRITUAL DEPENDEM DE MORTIFICARMOS AO ATOS DA NATUREZA PECAMINOSA.

Sábado, Setembro 02, 2006

A Glória de Cristo ilustrada no Velho Testamento - John Owen

A GLÓRIA DE CRISTO


Sabemos que o Velho Testamento é sobre o Senhor Jesus Cristo. Vamos considerar alguma das maneiras pelas quais a glória de Cristo foi predita.

Primeiro, uma formosa ordem de adoração foi dada pro Deus a Moisés e, Através dele, ao povo de Israel. Havia o tabernáculo ( e mais tarde o Templo ) -, com o lugar santo, a arca, o propiciatório, o sumo sacerdote, os sacrifícios e o aspergimento de sangue. Mas estes eram apenas uma sombra que se antecipava a Cristo – o único sacrifício pelo pecado em Seu contínua atividade como o nosso grande sumo sacerdote. O Espírito de Cristo também estava nos profetas que pregaram “...anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir” (1Pe 1.11).

Assim como há aquela adoração externa que testifica da glória de Cristo, há também a interna comunhão de Cristo com Sua Igreja em amor a graça ilustradas em Cantares de Salomão. Este livro é geralmente negligenciado e mal entendido. Alguns dias, ou mesmo algumas horas, gastos no gozo da amorosa comunhão com Cristo, tão maravilhosamente descrita em suas páginas, seriam uma benção muito maior que todos os tesouros da terra. Se nós, favorecidos como somos com a plena revelação de Cristo no Novo Testamento, entendemos menos da Sua glória do que os crentes do Velho Testamento, deveríamos ser julgados imerecedores de haver recebido o Novo Testamento!

Antes de Cristo haver nascido em Belém, algumas vezes Ele apareceu em forma de homem. O Velho Testamento se refere a Ele como estando zangado, ou bem satisfeito, falando como um homem, e assim aponta para o futuro antevendo o tempo em que Ele Se tornaria o homem Jesus Cristo.

Quando a lei foi dada no Monte Sinai, era cheia de terror porque ninguém podia cumprir os seus santos desígnios (Ex 19). Mas quando Cristo veio à terra e a cumpriu, Ele obteve, em conseqüência disso, perdão e retidão para o Seu povo. Isaías viu a glória de Deus e ficou cheio de terror até que o seu pecado lhe foi tirado por meio de uma brasa do altar. Aquilo foi uma ilustração do pode de purificação do sacrifício de Cristo (Is 6.5-7; Jo 12.41). Isaías também profetizou sobre a glória de Cristo vindo ao mundo em forma de uma criança: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Do incremento deste principado e da paz não haverá fim...” (Is 9.6-7).

Apesar dos profetas haverem predito a glória do Cristo que estava para vir, eles não entenderam completamente aquilo que disseram. Agora, porém, quando cada palavra de sua revelação é-nos tornada clara no evangelho, nada a não ser um orgulho demoníaco nos corações humanos, pode mantê-los cegos à verdade da glória de Cristo que é vista no Velho Testamento.

As promessas e profecias sobre a pessoa de Cristo, Sua vinda, o Seu reino e Sua glória, são como um fio de vida atravessando todo o Velho Testamento. Cristo explicou todas estas coisas aos Seus discípulos, por meio dos escritos de Moisés e de todos os profetas, como também a sabedoria, graça e amor de Deus á Igreja por intermédio dEle (Lc 24.27; 44-46). Não nos beneficiaremos de ler o Velho Testamento, a não ser que estejamos procurando e meditando na glória de Cristo em suas páginas.

Por último, Deus graciosamente nos ajuda em nosso entendimento ao dar vários nomes ao Senhor Jesus no Velho Testamento, os quais revelam de diversas maneiras a Sua excelência. Entre outros, Ele é chamado de rosa e lírio, dada a doçura do Seu amor e pela beleza de Seus graça e obediência. Ele é chamado de pérola, por causa do Seu valor, de vinha, por causa dos Seus frutos, de Leão, pelo Seu poder, e de cordeiro, devido ser apropriado para o sacrifício. Menciono estas coisas, não como idéia de estudá-las aqui em detalhes, mas apenas para estimular reflexão sobre tais expressões e seus significados côo revelando algo do glorioso caráter de Cristo.

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

A Glória de Cristo como Mediador: (4) Sua Posição Exaltada - J. Owen

Agora consideraremos a glória de Cristo que se seguiu ao Seu sofrimento. Esta é a mesma glória que Ele possuía com o Pai antes da fundação do mundo. Ele orou para que Seus discípulos pudessem estar com Ele onde estava pra ver a Sua glória (Jo 17.5,24).

Enquanto estava no mundo, em forma de servo, a Sua glória estava velada. Quando há um eclipse do sol, a sua beleza, luz e glória não podem ser vistos por algum tempo. Semelhantemente toda a beleza, luz e glória de Cristo estavam temporariamente eclipsadas enquanto Ele estava aqui na terra. A Sua glória, entretanto, será vista com alegria e admiração sobrenatural por todos aqueles que estiveram com Ele nos céus.

Sabemos, também, que a mesma natureza humana que Cristo possuía neste mundo está exaltada agora na glória. Não podemos entender isso totalmente, mas é uma crença básica do cristão verdadeiro. Igualmente, não sabemos semelhantes a que seremos então; muito menos podemos imaginar com Ele será. Esta natureza humana de Cristo não se mistura com a Sua natureza divina no céu, porém, ela é enchida e completada com toda graça e perfeição da qual uma natureza criada é capaz.

Os crentes compartilharão dessa glória da natureza humana de Cristo. “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele; porque assim como é o veremos” (1Jo 3.2).

Entretanto, nunca seremos semelhantes a Ele no mesmo nível, pois a Sua glória é infinitamente superior a dos anjos e homens. “Uma é a glória do sol, e outra é a glória da lua, e outra é a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória da outra estrela” (1Co 15.41).

Deus, o Pai, deu a Cristo a maior glória e dignidade que pode ser dada a qualquer pessoa, quando Ele O fez sentar-se à direita da majestade nas alturas. Deus fez isso por causa do Seu infinito amor a Cristo e o Seu prazer no que Ele havia feito como mediador entre Deus e a humanidade. Adicionado a isso está a glória única de Cristo em Sua divina sabedoria, amor e graça; que é totalmente demonstrada na redenção da igreja.

A glória que o Senhor possui no céu só pode ser entendida através da fé. Pessoas ignorantes, usando apenas a sua imaginação humana, tentam representar essa glória em quadros... porém eles não sabem as Escrituras nem a glória eterna do Filho de Deus. Não devemos visualizar a imagem de uma pessoa no céu, e sim usar a nossa fé para meditar na descrição da glória de Cristo apresentada nas Escrituras. Não devemos dar desculpa que haverá tempo suficiente para considerar todas essas coisas quando chegarmos ao céu. Se não tivermos algum conhecimento da glória de Cristo aqui e agora, significa que não temos um real desejo da Sua presença no céu.

Somos todos muito egoístas e ficamos contentes o suficiente se nossos pecados são perdoados e se somos salvos por Cristo. Mas, a nossa fé e amor devem no impelir a colocar Cristo e Seus interesses acima da tudo o mais. Quem é que agora está circundado de glória e poder à mão direita da majestade nas alturas? É Ele que era pobre, foi desprezado, perseguido e morto por nossa causa.

É o mesmo Jesus que nos amou e Se entregou por nós e nos redimiu pelo Seu próprio sangue. Se valorizarmos corretamente o Seu amor e compartilharmos de quaisquer dos benefícios que surgiram do que Ele fez e sofreu pela Sua Igreja, então sé podemos nos regozijar na Sua glória e no Seu estado presente.

Bendito Jesus! Não podemos Te acrescentar nada, nem mesmo à Tua glória. Mas é uma alegria pra nossos corações saber que estás tão gloriosamente exaltado à mão direita de Deus, e desejamos ver essa glória mais completa e claramente, como rogaste que víssemos e nos prometeste.

Terça-feira, Agosto 22, 2006

O Poder da Tentação 2 - John Owen

3. O Poder da Tentação Comunitária

No Apocalipse 3.10: O Senhor fala da tentação (“hora da provação”) “que há de vir sobre o mundo inteiro, para tentar os que habitam na terra”. Essa “hora da provação” veio pra testar os cristãos descuidados naqueles dias. Satanás veio como um leão rugindo para persegui-los, e como um anjo de luz procurando desviá-los. Precisamos pensar me três aspectos deste tipo de tentação:

a) Este tipo de tentação é um julgamento vindo de Deus e Deus tem dois propósitos através dele

Um é a punição do mundo que tem desprezado o Seu evangelho. O outro é o julgamento daqueles que falsamente professam ser cristãos. Isto significa que a provação tem um poder especial de modo que executará o propósito divino. A Bíblia fala de pessoas que “não acolheram o amor da verdade para serem salvas”; pessoas que não creram na verdade mas se deleitaram com a injustiça. Para puni-las, “Deus lhes manda a operação do erra para darem crédito a mentira...” (2Ts 2.9-12). Deus não mudou.

Na sua santa soberania Ele ainda manda tais provações, e elas nunca são em vão. Deus lhes dá poderes de modo que elas alcancem e produzam o que Ele deseja.

b) Este tipo de provação envolve a tentação para seguir o exemplo de outros professos que têm a reputação de serem piedosos.

Em tempos de crescente impiedade, o padrão da piedade do povo de Deus decairá. Este declínio começará com alguns cristãos que se tornarão relaxados, mundanos, sendo negligentes com seus deveres cristãos. Estes cristãos questionarão os velhos caminhos e se sentirão a vontade para seguir seus desejos pecaminosos. Inicialmente, outros cristãos os condenarão e, talvez, até mesmo os repreendam. Depois de algum tempo, porém, maior número de cristãos se acomodará ao exemplo destes poucos cristãos. Não vai demorar muito para que seja difícil encontrar alguém que realmente seja piedoso.

Este princípio, o de que “um pouco de fermento leveda a massa toda” (1Co 5.6; Gl 5.9), precisa ser levado a sério. Com apenas uns poucos cristãos influentes prosseguindo em seu declínio espiritual e justificando-se diante dos outros, logo uma multidão seguirá o exemplo deles. É mais fácil seguir a multidão para praticar o mal do que se colocar firme do lado daquilo que é certo. O mesmo princípio se evidencia na questão do ensino falso.

Do que se precisa para mudar toda a posição doutrinária de uma igreja? Tudo do que se necessita é de alguns cristãos influentes que continuem promovendo e justificando ensinos falsos. Não vai demorar muito para que uma multidão os siga.

Quão poucos são os cristãos que percebem a força da tentação para seguirmos o exemplo dos outros! Em cada geração os cristãos precisam aprender a colocar sua confiança na Palavra de Deus e não nos homens piedosos. Se formos humildes, acharemos necessário considerar seriamente a opinião e as práticas daqueles que têm reputação de serem piedosos. Contudo, não é necessário seguirmos o seu exemplo se suas opiniões e práticas são contrárias a Palavra de Deus.

b) Este tipo de tentação geralmente inclui fortes razões para acompanharmos uma multidão em direção ao mal

No ponto anterior observamos que há uma forte tentação para que sigamos o exemplo de pessoas que têm uma boa reputação. Além disso, estes líderes que nos induzem ao mal oferecem as melhores razões pra justificar suas opiniões ou o exemplo que dão. Você estaria pronto a pensar por você mesmo? Se for assim, você será dificilmente enganado pelas falsas conclusões das outras pessoas.

O Novo Testamento, por exemplo, nos dá, indubitavelmente, ensinos claros sobre a liberdade que os cristãos têm em Cristo. Infelizmente, não é difícil alguns perverterem esse ensino. Lenta e deliberadamente as salvaguardas da santa lei de Deus são removidas e a liberdade cristã se transforma em licença para pecar. Se os cristãos percebessem logo no início do ensino par onde a falsa interpretação os estaria levando, provavelmente eles se voltariam dela horrorizados.

Pode bem ser que muitos desses ensinadores, eles mesmos, não saibam para onde seus ensinamentos os estão conduzindo. A princípio o desvio da verdade parece ser pequeno e insignificante. Sem se aperceberem, tais ensinadores e seus seguidores se afastam mais e mais da verdade, até que se constate que “mudaram a verdade de Deus em mentira” (Rm 1.25).

Há por exemplo, hoje, um número crescente de cristãos professos que se inclinam na direção de amenizar e anular a condenação bíblica das práticas homossexuais. Esta é uma ilustração bem atuas deste princípio.

4. O Poder da Tentação Pessoal

Já consideramos, em parte, o poder da tentação no que tange a seu efeito sobre o indivíduo sob o título “O poder que a tentação tem de obscurecer a nossa mente”. Queremos, agora, simplesmente acrescentar mais dois pontos:

a) Em primeiro lugar

Por que é que “a hora da provação” é tão forte? Há dois poderes em ação quando somos tentados. Um é o poder da tentação que está fora de nós. O outro é o desejo pecaminoso do coração. Na “hora da provação” estes dois poderes se encontram e cada um deles fortalece o outro. Por causa da tentação nossos desejos pecaminosos são fortalecidos; devido eles serem assim fortalecidos, o poder da tentação para nos levar a cair fica ainda mais forte.

Há algumas pessoas (inclusive alguns cristãos) que outrora nunca teriam pensado em cometer certos atos pecaminosos. Estão agora cometendo-os com pouco sentimento de vergonha ou remorso. Como é que isso veio a acontecer? Podemos ilustrar o processo com um exemplo bem simples: a ruptura de um matrimônio cristão pelo adultério. Quando essas pessoas se casaram, esperavam genuinamente permanecer fiéis. Mas por toda parte vemos adultério, até mesmo entre cristãos. Como é que isso acontece?

A resposta se encontra neste princípio do poder da tentação estar fortalecendo o desejo pecaminoso pelo adultério. Assim como o desejo pecaminoso é fortalecido, assim também o poder da tentação cresce até que o poder combinado dos dois persuade a pessoa a cometer o pecado da adultério. Este não é um evento que ocorre subitamente. Houve um processo que ocorreu, um processo que persistiu durante muitos anos antes que o pecado de fato fosse praticado. Muitas vezes o processo se dá da seguinte maneira: depois de alguns anos de vida matrimonial, um dos cônjuges experimenta a tentação para ser infiel. Esta primeira tentação encontra guarida por que apela para um desejo pecaminoso que já existe no coração.

A primeira tentação encontra certa resposta, mas a alma a resiste parcialmente. Pode ser que, até mesmo se sinta chocada por estar considerando tal coisa. A tentação é resistida. Muito embora a tentação tenha sido resistida ela chegou a entrar na alma e começou sua obra de fortalecer o desejo pecaminoso daquele pecado. A tentação alimenta esse desejo de diversas maneiras. Sendo assim, o desejo cresce. Disso resulta que a própria tentação cresce na sua força. Depois de certo tempo o desejo pecaminoso tem se tornado tão forte que só necessita de uma tentação que lhe propicie uma ocasião adequada a fim de que o pecado seja cometido.

Só existe uma maneira de nós lidarmos de modo satisfatório com a questão da resistência à tentação: é irmos diretamente contra os desejos pecaminosos aos quais a tentação apela, procurando fortalecê-los. Tão logo tomemos consciência de um desejo pecaminoso, quer seja a ambição, o orgulho, o mundanismo, a impureza ou qualquer outra coisa, é mister que busquemos mortificar esse desejo. A escolha é esta: ou mortificamos o desejo pecaminoso ou nossa alma morrerá.

b) Em segundo lugar

Precisamos, também, considerar que a obra da tentação afeta toda a alma e não apenas os desejos pecaminosos aos quais ela apela. Podemos ilustrar isto voltando ao nosso exemplo anterior. Quando a primeira tentação à infidelidade vem a um cristão, sua razão lhe diz que esta tentação precisa ser resistida. Uma vez, porém, tendo a tentação entrado na sua alma, ela agirá na razão também. A razão deveria ser governada pela consciência e se opor à tentação. Contudo, acontece que ela se torna governada pelo desejo e favorece a tentação. Na medida em que o desejo pecaminoso fica mais forte, ele irá, de um jeito ou de outro, apoderar-se de toda a alma.

Notamos, mais uma vez, que há um processo se desenvolvendo. No início, dirigida pela voz da consciência, a razão se opõe a tentação. Tendo a tentação entrado na alma, constatamos que progressivamente a razão vai agindo a favor da tentação. Dentro de pouco tempo, a razão, que previamente não podia contemplar esse pecado, começa lentamente a pensar no prazer que o pecado trará. Passo a passo a razão é induzida para afugentar o temor e o medo do pecado. Finalmente, ela estará incentivando e justificando o próprio pecado que antes não podia sequer contemplar. É amedrontador considerar o poder da tentação em perverter o uso da razão, com vistas aos seus fins iníquos.

Aprenda da sua Própria Experiência.

Deveríamos sempre aprender de nossa própria experiência, assim como da de outros. O que é que sua própria experiência de tentação no passado lhe ensina? Acaso não lhe ensina que a tentação maculou sua consciência, perturbou ou roubou sua paz, enfraqueceu-o na sua obediência e escondeu o sorriso de Deus de você? Pode ser que a tentação tenha falhado e não o tenha conseguido persuadir a dar vazão ao seu desejo pecaminoso. Até mesmo quando isso ocorre, não seria verdade que ela deixou gravada na sua alma sua sujeira e lhe causou grande tormento? Todos admitimos que, raramente, se é que alguma vez isso se dá, saímos da tentação sem alguma perda espiritual.

Se essa é a sua experiência, então como poderia você voluntariamente se deixar enredar pela tentação? Se você gozando de liberdade da tentação, cuide-se muito para evitar que entre na tentação outra vez caso alguma coisa pior lhe suceda.

O alvo de satanás ao tentar os homens é sempre o mesmo. Em cada tentação o alvo principal é sempre o mesmo. É sempre desonrar a Deus e arruinar nossas almas. Acaso você trata levianamente a tentação o brinca com ela quando sabe o que ela pretende obter? Crê, realmente, que a tentação quer alcançar tanto você como Deus? Se for assim, então a gratidão a Deus exige que você use os meios que Deus colocou à sua disposição para frustrar o alvo de satanás quando ele o tenta.

Segunda-feira, Agosto 21, 2006

O Poder da Tentação - Parte 1 - John Owen

SE CONSIDERARMOS SERIAMENTE nossa fraqueza, encontraremos abundantes razões para levar a sério nosso dever de “vigiar e orar”.

Nossas fraquezas podem ser vistas de dois ângulos:

1. Não temos Poder ou Força em nós mesmos para Suportar “a Hora da Provação”.

Uma boa parte da fraqueza de cada pessoa é uma confiança infundada na sua própria força. A confiança de Pedro em si mesmo (Mt 26.33) era, certamente, sua fraqueza. Muitas pessoas são assim. Nunca fazemos as coisas tão bem quanto pensamos que somos capazes de fazer. E o que é ainda pior é que os desejos pecaminosos são como um traidor dentro de nossos corações.

Estão prontos a nos trair para o inimigo. Essa é a razão por que nunca devemos nos vangloriar como se tivéssemos a força para resistir na hora da provação. Podemos nos vangloriar em pensar que há certas coisas que jamais faríamos. Esquecemos que o coração nunca é o mesmo diante da tentação como ele é antes de entrar na tentação. Pouco se apercebia Pedro de que iria negar o seu Senhor tão logo alguém o questionasse. Quando a hora da provação chegou, todas suas decisões foram esquecidas, todo seu amor por Cristo foi temporariamente sepultado, e a tentação se uniu ao temor de Pedro e o venceu completamente.

Confiar na própria força é uma falha tão comum que seremos sábios examinando-a um pouco mais de perto. No que estamos confiando?

a) De Modo Geral

Estamos confiando nos nossos próprios corações. Muitos incrédulos se ufanam de ter um bom coração mas a Bíblia diz: “o coração dos perversos vale muito pouco” (Pv 10.20). É contra o coração que a tentação irá se arremeter. Como um frágil coração poderá
resistir diante de uma forte tentação? O cristão verdadeiro que confia no seu próprio coração não está em melhor situação por que a Bíblia diz: “O que confia no seu coração é insensato” (Pv 28.26).

Pedro era um verdadeiro cristão, mas comportou-se como um tolo quando confiou no seu próprio coração. A Bíblia também diz: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas” (Jr 17.9) Ousamos confiar naquilo que é enganoso... mais do que todas as coisas?

b) De Modo mais Específico

Estamos confiando em que o coração tenha motivação suficiente forte para evitar se deixar vencer pela tentação. Seriam essas motivações suficientemente fortes?
Pense em alguns exemplos:

i) O amor à honra do mundo

A reputação e a estima que uma pessoa tenha ganho ao longo dos anos de uma vida cristã fiel e de bom testemunho são muito valiosas. Certas pessoas pensam que essas coisas se constituem em motivação suficiente forte par permanecerem firmes na hora da provação. Essas pessoas pensam que preferirão morrer a abrir mão da reputação que granjearam na igreja de Deus. Todavia, infelizmente isso não é uma motivação suficiente para que uma pessoa não caia no pecado. De fato, não evitou que Himineu e Fileto caíssem (2 Tm 2.17). Nem guardará qualquer um de cair na hora da provação.

ii) O medo da vergonha, da perda e da reprovação

Certas pessoa crêem que o simples temor de trazer vergonha sobre si mesmas ou sobre a causa de Cristo é um incentivo suficientemente forte para mantê-las firmes na hora da provação. Isso só pode ser de valor no caso de tentações públicas, que conduzem a pecados observáveis. Aqueles que dependem desta motivação, logo descobrirão no dia da tentação que ela não tem o poder que lhe atribuíam.

iii) O temor de uma consciência perturbada e o medo do inferno

O temor de uma consciência ferida e de ir ao inferno são pensamentos que devemos considerar freqüentemente. Estes temores, porém, por si mesmos, não nos dão garantias de que permaneceremos firmes na hora da provação. Há pelo menos três razões por que estas considerações falharão e não nos sustentarão:

(a) Às vezes a paz de consciência que uma pessoa quer preservar é uma falsa paz. Depois que Davi pecou com Bate-Seba e antes que o profeta Natã o advertisse, Davi estava em paz. Era uma falsa paz. Pior ainda, muitos incrédulos pensam que têm paz com Deus, entretanto é uma falsa paz. Assim como uma paz falsa será inútil no dia do juízo, ela também se evidenciará impotente na hora da provação.

(b) Uma verdadeira paz de consciência é muito valiosa. Ela porém, por si mesma, não será suficiente para preservar uma pessoa na hora da provação. A razão é que um coração enganoso é capaz de produzir grande número de razões que mostram não ser importante preservar a paz de consciência. Eis aqui duas delas: “Outros cristãos caíram e recuperaram sua paz”. E, “Se eu perder minha paz eu posso recuperá-la”. Quando a hora da provação chegar, estes e outros argumentos logo levarão a alma à estafa e conseqüentemente à abrir mão de sua paz.

(c) Pensarmos que o desejo de manter nossa paz de consciência é suficiente para nos preservar na hora da provação é como um soldado pensar que, enquanto usar o capacete não será ferido na batalha. A paz de consciência é uma parte da armadura necessária para vencermos a tentação. Contudo, a tentação logo encontrará um alvo desprotegido.

iv) A Impiedade de Pecarmos contra Deus

Você pode possuir uma consciência vívida da impiedade de pecarmos contra Deus. Isso parece ser uma forte proteção contra a hora da provação. Pois bem, como pecarei contra o Deus da minha salvação? Como ferirei o meu salvador Jesus Cristo que morreu por mim? Mais uma vez é preciso que se diga que esta proteção pro si mesma não é suficiente para nos guardar de pecar na hora da provação. Cada dia que passa nos fornece tristes evidências de que essa consideração por si só fracassará. Toda vez que um filho de Deus cai no pecado, isso evidencia que a tentação venceu essa proteção.

Temos considerado a fraqueza do ponto de vista de nossa falta de poder. Precisamos considerar:

2. O Poder que a Tentação tem de Obscurecer a nossa Mente.

A bebida afeta o entendimento do homem (Os 4.11). A tentação afeta o entendimento da mesma maneira. O deus deste mundo cega as mentes daqueles que não crêem no evangelho para que não vejam a glória de Cristo (2Cor 4.4). De um modo muito semelhante, cada tentação tira a clareza do entendimento e do juízo. A tentação exerce seu poder de muitas maneiras, entretanto o consideraremos apenas três daquelas, aquelas que são as mais comuns:

a) A tentação pode dominar a imaginação e os pensamentos de tal maneira que a pessoa não pode pensar em outra coisa.

Se uma pessoa é tentada, existem várias considerações que lhe poderiam trazer alívio, porém a tentação é tão forte que domina sua mente e sua imaginação. Ele é incapaz de se concentrar nas coisas que a libertaria. É como uma pessoa dominada por um problema. Há muitas maneiras de elaborar uma solução para o problema mas ela está tão preocupada com o problema que está cega para as possíveis soluções.

b) A tentação pode usar os desejos e as emoções de um homem para turvar sua mente, impedindo-o de pensar claramente

Sempre que uma pessoa permite que seus desejos e suas emoções controlem o seu entendimento, ela deixará de pensar com clareza. Muitas vezes a tentação cativará de tal maneira seus desejos e suas emoções, que ela não mais será capaz de controlar a razão. Antes de um homem entrar numa tentação em particular, é possível perceber que certo curso de ação está errado. No entanto, quando a tentação chega nos seus desejos e nas suas emoções, ele já não mais pensa claramente. Logo estará pensando em maneiras de justificar ou desculpar suas ações pecaminosas.

c) A tentação inflamará os desejos maus do coração de um homem, de maneira tal que eles controlarão a sua mente

Desejos pecaminosos são como o fogo. A tentação é o combustível que o incendiará de modo que fuja ao seu controle. A razão humana freqüentemente o persuadirá a refrear os seus desejos pecaminosos, lembrando-o das conseqüências do que ele quer fazer. Se o fogo da tentação agir nos desejos pecaminosos, a razão não mais terá a capacidade de se precaver contra eles. Ninguém conhece a violência e o poder do desejo pecaminoso até que esse desejo se defronte com uma tentação adequada para ele. Até mesmo os melhores homens ficarão surpresos e assombrados com o poder de um desejo pecaminoso quando se depara com uma tentação adequada. Pense tão-somente como o medo de Pedro o levou tão depressa a negar o Seu Senhor. Você ousaria se considerar mais forte que ele quando enfrenta um inimigo tão poderoso?

Domingo, Agosto 20, 2006

A Glória de Cristo como Mediador: Sua Obediência - John Owen

Havia uma glória invisível em tudo o que Cristo fez e sofreu na terra. Se as pessoas a tivessem visto, elas não teriam crucificado o Senhor da glória. Entretanto, aquela glória foi revelada a alguns; os discípulos “viram a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).

Primeiro, vamos considerar a obediência de Cristo naquilo que Ele fez. Ele livremente escolheu obedecer. Ele disse: “Eu vim para fazer a tua vontade, ó Deus”, antes de haver necessidade pra Ele fazer essa vontade. Ele não era como nós, criaturas humanas, que necessariamente sempre estivemos sujeitos à lei de Deus. João Batista sabia que Jesus não tinha necessidade de ser batizado. Mas Cristo disse: “Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.15). Cristo voluntariamente Se identificou com os pecadores quando foi batizado.

Deus deu-lhe honra e glória porque, pela sua obediência, a Igreja toda se tornou justa (Rm 5.19). A obediência de Cristo a cada parte da lei foi perfeita. A lei era gloriosa quando os Dez Mandamentos foram escritos pelo dedo de Deus. Ela se torna mais gloriosa ainda quando é obedecida nos corações dos crentes. Mas é apenas na mais absoluta e perfeita obediência de Cristo que a santidade de Deus na lei é vista em sua glória total. “Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padecer” (Hb 5.8). O Senhor de todos, que fez a todos, viveu em estrita obediência à lei de Deus. Posto que Ele era uma pessoa singular, a Sua obediência possui a glória de Sua singularidade.

Ora, considerem a glória da obediência de Cristo demonstrada naquilo que Ele sofreu. Ninguém jamais pode medir a profundidade dos sofrimentos de Cristo. Podemos olhar para Ele sob o peso da ira de Deus, em Sua agonia e suor de sangue, nos Seus fortes gritos e lágrimas. Podemos olhar pra Ele orando, sangrando, morrendo, fazendo da Sua alma uma oblação pelo pecado. “Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo de sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes: pela transgressão do meu povo foi ele atingido” (Is 53.8). “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Rm 11.33). Quão glorioso é o Senhor Jesus aos olhos dos Seus redimidos!

Por causa do pecado de Adão, ele e todos os seus descendentes se acham diante de Deus sujeitos a perecer eternamente sob a ira de Deus. Enquanto, nessa condição o Senhor Jesus vem até os pecadores persuadidos, com o Seu convite: “Pobres criaturas! Como é triste a sua condição! O que aconteceu com a beleza da glória e da imagem de Deus nos quais vocês foram criados? Vocês agora têm a imagem deformada de Satanás; pior queu isso, miséria eterna aguarda vocês. No entanto, olhem para cima mais uma vez; contemplem-Me! Eu me colocarei em seus lugares. Eu suportarei o peso da culpa e a punição que jogaria vocês para sempre no inferno. Eu me tornarei, temporariamente, em maldição para vocês, para que possam ter bem-aventurança eterna”.

Contemplemos a glória demonstrada no evangelho:Jesus Cristo é crucificado diante dos nossos olhos (Gl 3.1). Nós só entendemos as Escrituras à medida que vemos nelas o sofrimento e a glória da Cristo. A sabedoria do mundo não vê nada neles a não ser estultícia. “Mas, se ainda nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2Co 4.3-4).

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

A GLÓRIA DE CRISTO COMO MEDIADOR: SEU AMOR

Há muitos textos das Sagradas Escrituras que se referem ao amor de Cristo. Por exemplo: “...o Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2.20); “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós...” (1Jo 3.16); “Àquele que nos ama, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados... a ele a glória e poder para todo o sempre” (Ap 1.5-6). A Porção mais brilhante da glória de Cristo é o Seu amor. Não há nenhum terror nele, mas é atraente e nos traz refrigério.

A razão principal de Cristo tornar-Se mediador foi por causa do amor do Pai. O qual escolheu salvar um número incontável de pessoas mediante o derramamento do sangue de Cristo. E eles são santificados pelo Espírito (2Ts 2.13; Ef 1.4-9). Desde que Deus é amor, qualquer comunicação que se estabeleça entre Ele e Seu povo há de ser em amor. (1Jo 4.8,9,16). Certamente não havia nada neles para que Deus os amasse. Qualquer coisa boa que haja em alguém é o efeito do amor de Deus nele (E 1.4). O amor de Deus é a eterna fonte da qual a Igreja recebe a sua vida através de Cristo.

Vamos agora considerar o amor do Filho, que é cheio de compaixão. Apesar de sermos criaturas pecaminosas, foi possível a nossa recuperação. Deus nos escolheu como um meio de expressar o Seu divino amor e bondade. Cristo assumiu a nossa carne e sangue, não a natureza dos anjos. (Hb 2.14-16). Ele envia com grande gozo a salvação dos pecadores, a qual iria trazer tanta glória a Deus.

O Seu desejo e prazer de assumir a natureza humana não foram diminuídos por causa do conhecimento das grandes dificuldades que Ele teria de enfrentar. Para nos salvar, Ele teria que continuar até que Sua alma estivesse: “profundamente triste até a morte”. Mas isso não o deteve. O Seu amor e perdão correram como águas de uma poderosa corredeira porque Ele diz: “Eis aqui venho; no rolo do livro está escrito de mum: deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” (Sl 40.7,8). Desta forma, um corpo foi preparado pra Ele, a fim de dar expressão à imensurável graça e ao fervente amor que Ele possui pela humanidade.

Agora, quando pensamos no glorioso amor de Cristo, descobrimos que há em Sua natureza divina o amor de Deus, o Pai. E há mais ainda, porque quando colocou em prática esse amor, Ele foi humano também. O amor nas duas naturezas é bastante distinto, contudo vem da mesma pessoa, Cristo Jesus.

Foi um ato indescritível de amor quando Ele assumiu a nossa natureza humana, porém isso foi apenas um ato de Sua divina. A Sua morte foi apenas um ato de Sua natureza humana. Os dois atos, porém, foram verdadeiramente dEle, como lemos em I Jô 3.16: “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós”

Apelo a vocês para que, de contínuo, preparem as suas mentes para as coisas celestiais, meditando seriamente na glória do amor de Cristo. Isto não pode ser feito, se suas mentes estão sempre cheias de pensamentos terrenos. Não se satisfaçam com pensamentos gerais sobre o amor de Cristo, mas pensem nisso de uma forma um pouco mais detalhada.

1. Considerem de quem é o amor: o amor do Filho de Deus, que é também o Filho do homem. Assim como Ele é único, o Seu amor também deve ser único.

2. Pensem na sabedoria, bondade e graça demonstrados nos atos eternos de Sua natureza divina e na compaixão e amor de Sua natureza humana em tudo o que Ele fez e sofreu por nós (Ef 3.19; Hb 2.14,15; Ap 1.5).

3. Merecíamos a ira, porém: “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 4.10). O amor de Cristo não é diminuído porque nós somos espiritualmente desagradáveis.

4. Pensem no poder destE amor quanto aos seus efeitos em nossas vidas habilitando-nos a produzir frutos para Sua glória.


É por isso que devemos meditar nos ensinamentos das Escrituras que contêm a doçura do amor de Cristo. Não se contentem apenas em ter uma idéia do amor de Cristo em suas mentes, mas provem, nos seus corações que o Senhor é gracioso (Ct 2.2-5). Cristo é o alimento das nossas almas. Não existe outra nutrição espiritual maior do que o Seu amor para conosco, o qual sempre deveríamos desejar.

Sábado, Agosto 12, 2006

A Glória de Cristo com Mediador: Sua Humilhação.

O pecado de Adão havia colocado uma distância tão grande entre Deus e a humanidade que toda a raça humana teria se perdido completamente a não ser que a pessoa ideal pudesse ser encontrada para promover a paz entre Deus e nós, isto é, agir como mediador. Deus não podia agira desse modo e não havia na terra ninguém que pudesse fazer isso. “Não há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós ambos” (Jó 9.33). No entanto, uma paz perfeita entre Deus e os homens tinha que ser feita por um mediador, ou jamais haveria paz. Por isso Jesus, o Filho de Deus, disse: “Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste... Eis aqui venho (no princípio do livro está escrito de mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hb 10.5-7). O Apóstolo Paulo por sua vez nos diz: “Porque há um só Deus, e em só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (ITm 2.7) e Cristo “aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fl 2.7). Isto O torna glorioso aos olhos dos crentes, que devem procurar o mesmo tipo de humilhação para si mesmo. Vamos observar três coisas:

1. A grandeza de Sua humilhação. “Quem é como o Senhor nosso Deus, que habita nas alturas; que se curva para ver o que está nos céus e na terra” (Sl 113:5,6). “Todas as nações são como nada perante ele; ele considera-as menos do que nada e como uma coisa vã” (Is 40.17). Há uma distância infinita entre Deus e Suas criaturas, e é puramente um ato de graça tomar conhecimento das coisas terrenas. Cristo, como Deus é completamente auto-suficiente em Sua eterna bem-aventurança. Quão grande, então, é a glória da Sua própria humilhação ao assumir a nossa natureza para que Ele pudesse nos levar a Deus! Essa humilhação não Lhe foi imposta; Ele livremente a escolheu.

2. A natureza especial da Sua humilhação. O Filho de Deus não cessou de ser igual a Deus quando Ele Se tornou homem. “Que sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus” (Fl 2.6). Os judeus queiram matá-lO porque ?Ele disse porque Ele disse que “...Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (Jô 5.18). Quando Ele tomou sobre Si a forma de um servo em nossa natureza, Ele Se tornou aquilo que
nunca havia sido antes, mas não deixou de ser aquilo que sempre tinha sido em Sua natureza divina. Ele, que é Deus, não pode deixar de ser Deus. A glória da Sua natureza divina estava velada, de forma que aqueles que O viram não acreditaram que Ele era Deus. Suas mentes não podiam entender algo que eles nunca haviam conhecido antes, que uma e a mesma pessoa pudesse ser Deus e homem ao mesmo tempo. Todavia, aqueles que crêem sabem que Ele, que é Deus, humilhou-se ao assumir a nossa natureza, a fim de salvar a Igreja para a eterna glória de Deus. É verdade que o nosso Senhor Jesus Cristo é uma pedra de tropeço e uma rocha de ofensa para muitos hoje que, à semelhança de maometanos e judeus, pensam nEle apenas como um grande profeta. Mas, se retirar-mos o fato de Ele ser Deus assim como homem, então toda a glória, verdade e poder do cristianismo também serão retirados.

Há três maneiras de pensar na verdadeira natureza de Sua divina humilhação:

I. Cristo, o eterno Filho de Deus, por meio de um ato indizível de Seu divino poder e amor, tomou sobre Si a nossa natureza humana e a fez Sua própria, assim como a Sua natureza divina Lhe pertencia. A natureza humana é comum a todos nós, mas torna-se especial para nós, individualmente, quando nascemos, de forma que somos indivíduos diferentes uns dos outros. Da mesma maneira, o Senhor Jesus Cristo assumiu a natureza humana que nos é comum, tornando-a especialmente Sua em “o homem, Jesus Cristo”.

II. Visto que Ele estava na terra, vivendo e sofrendo em nossa natureza, a glória de Sua divina pessoa ficou velada. “...aniquilou-se a si mesmo”.

III. Apesar de ter tomado a nossa natureza para Si próprio, Ele não a transformou em algo divino e espiritual, mas conservou-a inteiramente humana. De fato Ele agiu, sofreu, teve provações, foi tentado e abandonado como qualquer outro homem.

3. A glória de Cristo em Sua humilhação. Mesmo se fôssemos anjos não poderíamos descrever a glória manifestada na divina sabedoria do Pai e no amor do Filho em Se humilhar, tornando-Se homem. É um mistério, porque Deus é grande e Seus caminhos estão muito acima do entendimento de Suas criaturas. Entretanto, a glória da religião dos cristãos é que Aquele que era verdadeiramente Deus “aniquilou-se a si mesmo”, de forma que, comparado com outros, Ele podia dizer: “Mas eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo” (Sl 22.6). Acaso estamos sobrecarregados com o pecado? Estamos perplexos com as tentações? Apenas uma olhada para a glória de Cristo nos susterá e nos aliviará. “Então ele vos será santuário...” (Is 8.14). Ele, que Se esvaziou e Se humilhou em nosso favor, e nem por isso perdeu algo do Seu poder como Deus eterno, nos salvará de nossas angústias. Se não vemos nenhuma glória nisso, é porque não há conhecimento espiritual ou fé em nós. A glória de Cristo como mediador é o lugar de descanso onde o aflito pode descansar, “Este é o descanso, daí descanso ao cansado; e este é o refrigério” (Is 28.12).

Apelo a vocês, portanto, para meditarem, pela fé, na maravilha da dupla natureza de Cristo, com propósito firme e prático. Como cristãos devemos estar prontos a negar a nós mesmos e a tomar a nossa cruz. Todavia, não podemos fazer isso sem levarmos em conta a própria negação de Si mesmo que foi praticada pelo Filho de Deus (Fl 2.5-8). O que são as coisas deste mundo, mesmo aqueles a quem amamos, e nossas próprias vidas, que logo terminarão, comparados com a glória de Cristo quando Ele veio ao mundo para “aniquilar a si mesmo”? Quando começamos a pensar nestas coisas, logo chegamos a um ponto todos os dias. Ao descobrirmos que o objeto no qual a nossa fé está alicerçada é por demais grande e glorioso para o nosso entendimento, então ficaremos cheios de santa admiração, humildade, adoração e ações de graças.

Quinta-feira, Agosto 03, 2006

A glória de Cristo Manifesta pelo Mistério de suas Duas Naturezas.

A glória de duas naturezas de Cristo numa única pessoa é tão grande que o mundo incrédulo não pode ver a luz e a beleza que irradiam dela. Muitos hoje negam que Jesus Cristo é o Filho de Deus e Filho do homem ao mesmo tempo. Mas, esta glória que os anjos “anelam perscrutar” (1Pe 1.2). Satanás levantou-se em orgulho contra Deus no céu, e depois tentou destruir os seres humanos na terra, os quais foram feitos à imagem de Deus. Sua grande sabedoria, Deus uniu em Seu Filho ambas as naturezas contra as quais Satanás havia pecado. Cristo, o Deus-homem, triunfou sobre Satanás através de sua morte na cruz. Aqui está o fundamento da Igreja. Deus “suspende aterra sobre o nada” (Jó 26.7). Entretanto, Ele fundou a Sua Igreja nesta rocha inamovível: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16). Este glorioso fato é mencionado em Isaías 9.6: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros, e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”.

Assim como o fogo estava na sarça que Moisés viu, igualmente a plenitude da deidade habitava corporalmente em Cristo, que foi feito carne e habitou entre nós (Ex 3.2; Col 2.9; Jô 1.14). O eterno fogo da natureza divina habitou na sarça da frágil natureza humana, contudo a natureza humana não foi consumida. Então vemos “a benevolência daquele que habitava na sarça” dirigida a nós, pecadores (Dt 33.16). Da mesma forma que foi dito a Moisés para tirar as suas sandálias, nós também devemos tirar de nossos pensamentos todos os desejos e imaginações que procedem de nossa natureza humana decaída, para que pela operação da nossa fé possamos ver a glória de Jesus Cristo. Espero que o que se segue nos mova a buscar de Deus o espírito de sabedoria e revelação para abrir os olhos do nosso entendimento.

1. Estejamos absolutamente certos de que essa glória de Cristo em Suas naturezas divina e humana é o melhor, mais nobre e o mais útil objeto em que podemos pensar. O apóstolo Paulo afirma que todas as outras coisas são apenas perda e quando comparadas com ela, como esterco (Fl 3.8-10). As escrituras falam da estultícia das pessoas em gastar “...o dinheiro naquilo que não é pão, e o produto do seu trabalho naquilo que não pode satisfazer (Is 55.2). Eles fixam seus pensamentos em seus prazeres pecaminosos, e se recusam de olhar para a glória de Cristo. Alguns chegam a ter pensamentos mais elevados sobre as obras da criação de Deus e de Sua benevolência, mas não há glória nessas coisas que se possa comparar com a glória das duas naturezas de Cristo. No Salmo oito, Davi está meditando na
grandeza dos obras de Deus. Isto o faz pensar na pobre e fraca natureza do homem, que parece como nada se comparada àquelas glórias. Então ele começa a admirar a sabedoria, amor e bandade de Deus por exaltar acima de todas as obras da criação a nossa natureza humana que estava em Jesus Cristo. O autor sagrado explica isto em Hebreus 2.5-6.

Como são agradáveis e desejáveis as coisas deste mundo – esposa, filhos, amigos, posses, poder e honra! Mas a pessoa que tem todas estas coisas e também o conhecimento da glória de Cristo dirá: “A quem tenho eu no céu senão a Ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti” (Sal 89.6). Apenas uma olhada na gloriosa beleza de Cristo é suficiente para vencer e capturar os nossos corações. Se não estamos olhando com freqüência para Ele, refletindo sobre a Sua glória, é porque as nossa mentes estão muito cheias de pensamentos terrenos. Desta forma, não estamos nos apossando da promessa de que nossos olhos verão o Rei em Sua beleza.

2. Uma das atividades da fé consiste em examinar as Escrituras, porque elas declaram a verdade sobre Cristo (Jô 5.39). Vamos ver a glória de Cristo nas Escrituras de três modos:

a) Por meio de descrições diretas de Sua encarnação e Seu caráter como Deus- homem (Gn 3.15; Sl 2.7-9; 45.2-6; 78.17,18; e 110.1-7; Is 6.1-4; 9.6; Zc 3.8; Jô 1.1-3; Fl 2.6-8; Hb 1.1-3; 2.4-16; Apc 1.17,18).

b) Mediante numerosas profecias, promessas e outras expressões que nos levam a considerar Sua glória.

c) Pelos exemplos de adoração divina que Deus instituiu no Velho Testamento e pelo direto dado a Ele no céu no Novo Testamento. Isaías disse: “Eu vi ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séqüito enchia o templo” (Is 6.1). Esta visão de Cristo foi tão gloriosa que os serafins (criaturas celestiais que assistem no céu) tiveram que cobrir as suas faces. Contudo, maior ainda foi a glória revelada abertamente nos dias apostólicos! Pedro nos diz que ele e os outros apóstolos foram testemunhas oculares da majestade do Senhor Jesus Cristo. “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda do nosso Senhor Jesus Cristo, segundo fábulas artificialmente compostas: mas nós mesmos vimos a sua majestade. Porquanto ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu Filho Amado, em quem me comprazo” (2Pe 1.16,17). Deveríamos ser como o que procura por todo tipo de pérolas. Quando ele encontra uma de grande preço, vende tudo o que possui para que possa adquiri-la (Mt 13.45-46). Cada verdade das Sagradas Escrituras é uma pérola que nos enriquece espiritualmente, mas quando nos deparamos com a glória de Cristo encontramos tanta alegria que nunca mais desejaremos dispor dessa pérola de grande valor. O gloriosa da Bíblia é que agora ela é a única forma tangível de nos ensinar sobre a glória de Cristo.

3. Devemos meditar frequentemente sobre o conhecimento da glória de Cristo que obtemos na Bíblia. As nossas mentes devem ser espirituais e santas e libertas de todos os cuidados e afeições terrenos. A pessoa que não medita agora com prazer na glória de Cristo nas Escrituras, não terá nenhum desejo de ver aquela glória nos céus. Que tipo de fé e amor têm as pessoas que acham tempo para meditar sobre muitas outras coisas, mas não têm tempo para meditar neste assunto glorioso?

4. Os nossos pensamentos devem se voltar para Cristo sempre que haja uma oportunidade a qualquer hora do dia. Se somos verdadeiros crentes e se a Palavra de Deus está em nossos pensamentos, Cristo está perto de nós (Rm 10.8). Nós O encontraremos pronto para falar conosco e manter comunhão. Ele diz: “Eis que estou a porta e bato: se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” (Ap 3.20). É verdade que há momentos em que Ele Se retira de nós e não podemos ouvir a Sua voz. E quando isso acontece, não podemos ficar contentes. Devemos ser como a noiva no Cântico de Salomão 3.1-4): “De noite busquei em minha cama aquele a quem ama a minha alma? Apartando-se eu um pouco deles, logo achei aquele a quem ama a minha alma: detive-o, até que o introduzi em casa de minha mãe, na câmara daquela que me gerou”.

A experiência da vida espiritual de um cristão é forte em proporção aos seus pensamentos sobre Cristo que nele habita e seu deleite nEle (Gl 2.20). Se tivermos deixado Cristo ausente de nossas mentes por muito tempo, devemos nos censurar por isso.

5. Todos os nossos pensamentos sobre Cristo e Sua glória devem ser acompanhados de admiração, adoração e ações de graças. Somos convidados a amar o Senhor com toda a nossa alma, mente e força (Mc 12.30). Se somos verdadeiros crentes, a graça de Cristo opera em nossas mentes e almas renovadas e nos ajuda a fazer isso. Na vinda de Cristo como juiz no último dia, os crentes ficarão cheios de uma tremendo sentimento de admiração por Sua gloriosa aparência – “...quando vier para ser glorificado nos seus santos, e para se fazer admirável naquele dia em todos os que crêem” (2Ts 1.10). Essa admiração se transformará em adoração e ações de graças; um exemplo disso é dado em Apocalipse 5.9-13, onde toda a Igreja dos redimidos canta um novo cântico; “E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo, e nação; e para o nosso Deus os fizeste reis e sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra. E olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos animais, e dos anciãos; e era o número deles milhares de milhares e milhões de milhões, que com grande voz diziam: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e a sabedoria, e força, e honra, e glória e ações e graças. E ouvi a toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que está no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre”.

Há algumas pessoas que têm esperança de serem salvos por Cristo e de ver a Sua glória num outro mundo, porém não estão interessados em meditar, pela fé naquela glória neste mundo. Elas são semelhantes a Marta, que estava preocupada com muitas coisas e não com Maria, que escolheu a melhor parte, sentando-se aos pés de Cristo (Lc 10.38-42). Que tais pessoas tomem muito cuidado para que não negligenciem nem desprezem o que deveriam fazer.

Alguns dizem que têm o desejo de contemplar a glória de Cristo pela fé, mas quando começam a considerar essa glória, eles acham que é coisa muito elevada e difícil. Eles ficam maravilhados, à semelhança dos discípulos no Monte da Transfiguração. Amito que a fraqueza de nossas mentes e a nossa falta de habilidade para entender bem a eterna glória de Cristo nos impede de manter os nossos pensamentos numa meditação firma e constante por muito tempo. Aqueles que não têm a prática e habilidade de uma santa meditação em geral não terão a capacidade de meditar neste mistério em particular. Mas, mesmo assim, quando a fé não consegue mais manter abertos os olhos do nosso entendimento para refletir sobre o Sol da Justiça brilhando em Sua beleza, pelo menos, pela fé ainda podemos descansar em santa admiração e amor.

Segunda-feira, Julho 31, 2006

A Glória de Cristo como Única expressão do Deus Invisível

A glória de Cristo procede de Sua natureza santa e das excelentes coisas que Ele faz. Todavia, só podemos ver a Sua glória apenas através de Jesus Cristo, quando olhamos para Ele (2Co 4.6). Cristo é 'o resplendor da glória do Pai" e "a imagem do Deus invisível" (Hb 1.3;Cl 1.15). Ele nos mostra a gloriosa natureza de Deus e revela a Sua vontade para nós. Sem Cristo, nunca veríamos a Deus por nenhum momento, quer aqui ou na eternidade (Jo 1.18) - Ele e o Pail são um. Quando Cristo tornou-se homem Ele revelou a glória do Seu Pai. Somente Ele torna conhecida a anjos e seres humanos a glória do Deus invisível.

Esta revelação é a rocha na qual a Igreja está construída, o fundamento firme de todas as nossas esperanças de salvação e de vida eterna. Aqueles que não podem ver essa glória de Cristo pela fé, não conhecem a Deus. São como os judeus e gentios incrédulos de antigamente. "Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus" (1Co 1.22-24).

Desde que começou a pregação do evangelho, o grande objetivo do maligno tem sido o de cegar os olhos das pessoas para que não possam ver a glória de Cristo. "Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus" (2Co 4.3-4). Esta cegueira ou escuridão espiritual é curada naqueles que crêem pelo grande poder de Deus. "Pouque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para a iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo" (2Co 4.6).

Uma grande parte da miséria e castigo da humanidade, por causa da queda de Adão ao pecar, é a densa escuridão e ignorância que cobriu a mente humana desde então. Os homens e mulheres têm-se vangloriado que são sábios, mas a sua sabedoria não os trouxe até Deus. (1Co 1.12; Rm 1.21). Nem mesmo a argumentação dos filósofos sobre aquelas coisas que são invisíveis e que ultrapassam a compreensão humana livra as pessoas da idolatria e da prática de todos os tipos de pecado. Satanás é o príncipe das trevas e ele estabelelceu o seu reino tenebroso nas mente humanas, mantendo-as em ignorância de Deus. Toda a maldade e confusão entre os seres humanos vem dessas trevas e dessa ignorância. Deus podia ter deixado que perecêssemos na cegueira e ignorância dos nosso sancestrais. Todavia, Ele
nos trouxe "das trevas para a sua maravilhosa luz" (1Pe 2.9)

A glória e privilégio especiais de Israel foram as palavras de Deus. Ele "mostra a sua palavra a Jacó, os seus estatutos e os seus juízos a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; e, quanto aos seus juízoa, não os conhecem" (Sl 147.19-20).
E Deus ainda falou-lhes através da negra escuridão porque eles não podiam compreender a glória que posteriormente seria conhecida em Cristo. Quando Cristo veio, foi possível ver que "Deus é luz, e não há trevas nenhuma nEle" (1Jo 1.5). Quando o Filho de Deus apareceu na semelhança de homem, Deus mostrou que a natureza divina era uma natureza gloriosa de três pessoas em uma - a Trindade. A luz deste conhecimento brilhou na escuridão do mundo a fim de que ninguém pudesse continuar ignorante de Deus, exceto aqueles que não podiam ver (Jo 1.5; 14,17- 18; 2Co 4.3-4). A glória de Cristo é que Ele revela esta verdade sobre a natureza invisível de Deus.

Quando nós a princípio cremos, vemos Deus Pai em Cristo. Não necessitamos do pedido de Felipe: "Senhor, mostra-nos o Pai", porque, vendo Cristo pela fé, temos também visto o Pai. (Jo 14.8,9). Davi ansiava por esta visão. "Ó quão, tu és o meu Deus; de madrugada te buscarei; a minha alma tem sede de ti; a minha carne te deseja muito em uma terra seca e cansada, onde não há água para ver a tua fortaleza e a tua glória, como te vi no santuário" (Sl 63.1-2). No tabernáculo havia apenas uma representação muito obscura da glória de Deus. Portanto, devemos valorizar a visão que podemos ter dessa glória, apesar de ainda "como em um espelho" (2Co 3.18) - Moisés havia visto muitas obras maravilhosas de Deus, mas ele sabia que a real satisfação da alma esta em ver a glória de Deus. Então ele ora: "Rogo-te que me mostres a tua glória" (Êx 33.18). É apenas em Cristo que podemos ter uma clara e distinta visão da glória de Deus e de Sua seperioridade.

Sabedoria infinita é parte da natureza divina e fonte de todas as obras gloriosas de Deus. "Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar da inteligência" (Jó 28.12). Podemos ver a sabedoria pelos seus efeitos, cujo maior deles é a salvação da Igreja. O apóstolo Paulo foi chamado "A demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou; para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus" (Ef 3.9-10). A sabedoria divina que vemos ao nosso redor no mundo criado, mesmo sendo grande como é, ainda pe pequena se for comparada com a sabedoria de Deus tornada conhecida a nós através de Jesus Cristo. Mas, apenas os crentes vêem a sabedoria de Deus em Cristo; ela não é vista poelos incrédulos (1Co 1.22-24). Se formos bastante sábios para ver essa sabedoria claramente, teremos um "gozo inefável e gloriosa" (1Pe 1.8).

Devemos, também considerar o amor de Deus como parte da natureza divina, "porque Deus é amor" ( 1Jo 4.8). As melhores idéias dos homens são imperfeitas e afetadas pelo pecado. Pensam que Deus é indolente ou alguém que é simplesmente como eles mesmos (veja o Salmo 50.21). Aqueles que não reconhecem a Cristo não imaginam que apesar de Deus ser amor, Sua ira "se manifesta do céu sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça" (Rm 1.18). Como, então, podemos conhecer o amor de Deus e ver a Sua glória nele? O apóstolo nos diz: "Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou o seu filho unigênito ao mundo para que por ele vivamos" (1Jo 4.9). Esta é a única evidência dada a nós de que Deus não tivesse vindo para nos mostrar a verdadeira natureza e atividade do amor divino. Aqui vemos como Cristo é belo, gloriosa, e desejável, porque Ele é quem mostra que Deus é amor.

Ver essa glória é a única maneira possível para obermos santidade, conforto e preparação para a glória eterna. Considerem, então, o que Deus tornou conhecido sobre Si mesmo por meio do Seu Filho, especialmente a Sua sabedoria, amor, bondade, graça e perdão. A vida de nossas almas depende destas coisas. Como o Senhor Jesus é único caminho para essas bençaos. Ele deve ser sumamente glorioso aos olhos dos crentes!

Há aqueles que olham para Cristo como um grande professor, mas não como a única expressão do Deus invisível. Mas se vocês têm um desejo por coisas celestiais, eu lhes pergunto: "Por que amam e confiam em Cristo? Podem dar uma razão para a esperança que existe em vocês? A razão seria porque vocês vêem a glória de Deus manifestada através de Cristo e as bençãos da salvação que de outra forma estariam escondidas eternamente de vocês?" - Há uma promessa para os dias do Novo Testamento que "Os teus olhos verão o Rei na sua formosura, e verão a terra que está longe" (Is 33.17). O que é esta beleza de Cristo? Ela significa que Deus está nEle e que Ele é único representante da glória de Deus em nós. Quem pode descrever a glória deste privilégio que nós, nascidos nas trevas, e destinados a ser jogados nas mais profundas trevas, pudéssemos ser trazidos até essa maravilhosa luz? "Porque Deus, que disse das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo" (2Co 4.6).

Incredulidade cega os olhos do entendimento das pessoas. Mesmo entre aqueles que dizem ter um conhecimento das pessoas. mesmo entre aqueles que dizem ter um conhecimento de Criso, há apenas alguns que realmente entendem a Sua glória e que são transformados em Sua semelhança. Ninguém jamais se tornará semelhante a Cristo simplesmente por imitar as Suas ações. Somente uma experiência da glória de Cristo é capaz de tornar um crente semelhante a Cristo. A triste verdade é que os melhores de nós não desejam gastar o seu tempo pensando seriamente neste assunto. Pensamentos a respeito da glória de Cristo são muito elevados e muito difíceis para nós. Não conseguimos nos deleitar por muito tempo neles sem que fiquemos treistes e nos desviemos deles. Não somos espirituais e os nossos pensamentos e desejos estão misturados com outas coisas. Se apenas nos despertássemos para crer nas "coisas qeu os anjos desejam prescrutar", a nossa força e entendimento espirituais estariam crescendo diariamente. Então demonstraríamos mais da glória de Cristo pela nossa maneira de viver e até a morte seria bem vinda a nós!!

Há aqueles que dizem não entender estas coisas. De qualquer forma, dizem eles, tal entendimento não é necessário para vivermos uma vida cristã prática. A minha resposta
a esta objeção é a seguinte:

1. Não há nada que seja mais claro e plenamente revelado no evangelho de que Jesus Cristo é a expressão do Deus invisível, de modo que, vendo-O, vemos também o Pai. Se esta verdade essencial não é recebida e aceita, todas as outras verdades bíblicas se tornam inúteis para as nossas almas. O evangelhoo inteiro é transformado numa fábula se apenas aceitarmos Cristo como um gande professor enão aceitarmos a verdade so Seu caráter único.

2. A principal razão porque a fé nos é dada é para que possamos ver a glória de Deus em Cristo e meditar em todos os seus feitos. Se não tivermos esse entendimento, que é dado pelo poder de Deus àqueles que crêem, não saberemos nada a respeito do mistério do evangelho (Ef 1.17-19; 2Co 4.3-6).

3. Cristo é infinitamente mais glorioso, acima de toda a criação, porque apenas através dEle que a glória do Deus invisível é-nos revelada integralmente, sempre por meio dEle é que a imagem de Deus é renovada em nós.

4. Fé em Cristo, como reveladora da glória de Deus, é a raiz da qual toda a prática cristã brota e se desenvolve. Todo aquele que não possui este tipo de fé não pode ser um verdadeiro cristão.

Àqueles que acham que este ensinamento sobre fé é um tanto estranho, mas gostariam de saber mais a respeito, eu dou os seguintes conselhos:

i. O maior privilégio desta vida é o de ver a glória de Deus, o Pai, em toda a Sua santidade, demonstrada em Cristo. "E esta é a vida eterna: que te conhecam a ti só, por único verdadeiro,e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17.3). A não ser que vocês valorizem isto como um grande privilégio, não aproveitarão.

ii. O nosso conhecimento de Cristo é um grande mistério qeu requer muita sabedoria espiritual para entender e para torná-lo de valor prático. A argumentação humana de nada nos adiantará; devemos ser ensinador por Desu mesmo. (Jo 1.12-14; Mc 16.16,17). Assim como o artífice deve estar bem treinado nas habilidades de sua arte, nós também devemos usar os meios estabelicidos por Deus para que sejamos crentes hábeis. O principal destes meios é a oração fervorosa. Orem comoPaulo: "Para queu o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo,o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação" (Ef 1.17). Almas preguiçasas nunca obtêm experiência dessa glória, mas é agradável procurar essas coisas da maneira que Deus ordena.

iii. Atentem para os ímpios - quão decididamente eles perseguem os seus desejos pecaminosos e neles meditam continuamente. Será que nós seremos preguiçosos em meditar na glória que um dia esperamos ver na sua plenitude?

iv. Os céus declaram a glória de Deus, mas neles aprendemos sobre essa glória face ao conhecimento dela a nós revelada em Cristo Jesus. As pessoas mais inteligentes e os maiores pensadores são cegos se comparados com aqueles que são os menores no reino dos céus, mas que conhecem a glória de Cristo.

O que deveríamos desejar, realmente, é conhecer o poder desta verdade em nossos corações. Queríamos ter a mesma alegria, descanso, prazer e satisfação indescritível como os santos que estão nas alturas? O nosso presente conhecimento da glória de Cristo é o início destas bênçaos e mediante experiências posteriores descobriremos uma mudança para melhor em nossas almas. Estas coisas invisíveis são preciosas àqueles que continuam meditar nelas, cujo deleite é caminhar nas veredas da fé e do amor.

Três pontos finais seguem daquilo que estamos considerando.

1. Sabemos que a sabedoria, bandade, amor, graça, perdão e poder de Deus são infinitamente floriosos porque existem nEle. Todavia, só podemos entendê-los quando temos uma visão satisfatória e calorosa deles e os vemos operando para a redenção da Igreja. Então a glória deles brilha sobre nós, trazendo-nos refrigério e alegria indescritíveis. "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória pois a Ele eternamente. Amém! (Rm 11.33-36).

2. É por meio de Jesus que cremos em Deus (1Pe 1.21). Assim, o objetivo final de nossa fé é Deus mesmo; mas vemos a Sua glória através de Cristo, o qual é o caminho divinamente designada para revelar a glória de Deus.

3. Cristo é o único caminho pelo qual os homens podem obter um conhecimento salvador de Deus. Os maiores poensadores religiosos do mundo estão apenas tateando nas trevas da compreensão limitada humana. Como um raio de luz numa noite escura ofusca a visão ao invés de mostrar o caminho ao viajante, assim a luz do conhecimento de Deus em Cristo brilha sobre o incrédulo mergulhado em trevas, e mesmo assim ele não vê o caminho por causa de sua incredulidade. Porventura não tornou Deus louca a sabedoria desse mundo?..."mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus" (1Co 1.20-24).

Quinta-feira, Julho 27, 2006

Por que levar tão a sério a tentação?

Já lançamos os fundamentos. Chegamos agora ao grande propósito deste estudo.

É o grande dever de cada cristão esforçar-se ao máximo valendo-se de todos os recursos que Cristo tem dado, para não cair em tentação.

Por que é tão importante este dever? Vamos considerar algumas razões que a Bíblia nos dá.

Razão 1

O Senhor Jesus Cristo nos deu um padrão para nossa oração diária. Neste modelo uma das petições é: "e não nos deixes cair em tentação; mas livrai-nos do mal" (Mt 6.13). Este petição pode ser parafraseada: "Opera em nós de tal maneira que sejamos poderosamente libertos daquele mal que acompanha nossa entrada na tentação" - Nosso bendito Salvador sabe como a tentação é perigosa e como precisamos da ajuda de Deus para sermos guardados de entrar na tentação. Confiamos na sabedoria, no amor e no cuidado de Jesus pelo Seu povo. Ele enfatiza este dever; devemos levá-lo a sério.

Razão 2

O Senhor Jesus Cristo prometeu uma grande recompensa a igreja em Filadélfia (Ap 3.10). Essa recompensa era a libertação da hora da provação que viria sobre o mundo inteiro. Você deseja essa benção? Deve, então, levar a sério o que Cristo designou como meios pelos quais podemos nos guardar da hora da provação.

Razão 3

Quando consideramos os horrendas conseqüências que têm sido o resultado dos homens (tanto os injustos como os justos) entrarem
na tentação, a sabedoria impõe que levemos bem a sério este dever. Estas horríveis conseqüências podem ser ilustradas à luz da experiência de duas classes diferentes de pessoas:

a)Pessoas que aparentam ser cristãos genuínos mas não o são.

Estas pessoas são descritas pelo Senhor Jesus Cristo na Sua parábola do semeador como "ouvintes semelhantes a terreno rochoso". Eles "recebem a palavra com alegria quando a ouvem, mas não tem raiz" (Lc 8.13). Eles crêem apenas por algum tempo, e na hora da provação se desviam.

Em todas as épocas há pessoas assim. Parece que iniciam bem na vida cristã, todavia, mais cedo ou mais tarde entram num período de tentação e abandonam sua profissão de fé. Estas pessoas também são descritas pelo Senhor Jesus como sendo semelhantes "a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia". O que acontece com esta casa? Ela abriga estas pessoas por algum tempo, porém quando a provação de um dia tempestuoso vem, ela cai, sendo grande a sua ruína" (Mt 7.26-27).

Verificamos que Judas seguiu o Senhor Jesus durante três anos. Ninguém, a não ser o Senhor Jesus podia perceber a diferença entre Judas e os outros do grupo dos doze. Tão logo Judas entrou em tentação el caiu para não mais vir a ser restaurado. Demas identificou-se com o apóstolo Paulo até que o amor do mundo o venceu e ele abandonou Paulo (2Tm 4.10). A entrada na tentação para essas pessoas é uma entrada na apostasia. Em muitos casos a apostasia é evidente e todos a percebem; noutros casos ela só se evidenciará no dia do juízo.

b)Pessoas que são verdadeiros cristãos

A Bíblia nos oferece muitas ilustrações das terríveis conseqüências de santos autênticos entrando na tentação. Precisamos nos limitar a ums poucos exemplos:

Adão: Adão foi criado à imagem de Deus, com uma natureza santa, e portanto ele não estava sujeito aos desejos pecaminosos de uma natureza caída. No entanto, mesmo ele foi vencido pela tentação assim que nela entrou. Como resultado disso ele se perdeu e se arruinou, bem como a toda a raça humana. Se um homem nas condições edeais de Adão pôde cair tão facilmente, que esperança existe para o resto da raça humana? Temos que lutar não apenas com o diabo, como no caso de Adão, mas também com um mundo que está debaixo da maldição de Deus, e como todos os desejos pecaminosos de uma natureza caída.

Abraão: Abraão, o pai dos fiéis, duas vezes entrou na mesma tentação. O receio quanto a segurança da sua esposa o tentou a mentir ( Na verdade a mentira dele a colocou mais em perigo ainda - a verdadeira preocupação era com a segurança dele). Deus foi desonrado, e Abraão sem dúvida alguma experimentou tristeza e remorso (Gn 12.12,13; 20.2).

Davi: Davi, "o homem segundo o coração de Deus", entrou em tentação para cobiçar outra mulher. Caiu nos pecados de adultério e de planejamento pecaminoso que envolveu outras pessoas no seu pecado. Chegou até mesmo a planejar a morte de um homem justo.

Muitos outros: A tentação e a queda de muitos outros tais comoNoé, Ló, Ezequias e Pedro nos é relatada para nossa instrução. Ele nos dão evidencia dolorosa de como os santos podem facilmente cair em pecados graves como resultado de entrarem em tentação. À luz de tais exemplos cada um de nós fará bem em orar: "Ó Senhor, se santos tão ilustres e poderosos podem cair tão miseravelmente quando entram na tentação, como poderei eu resistir nesse dia? Ó, guarda-me, para que eu não entre em tentação!!"

Deus nos tem feito muitas advertências e nos tem dado muitos exemplos de outros santos que caíram em pecado quando foram tentados. A despeito disso, alguns cristãos entram ousadamente no caminho da tentação. Quão grande tolice!!

Segunda-feira, Julho 24, 2006

Tentação -Tome Cuidado!!!

"Cair em tentação" é experimentar a tantação na sua forma mais poderosa e perigosa. Na pate principal deste capítulo concentraremos nossa atenção sobre o perigo da tentação considerando o significado de duas frases encontradas no Novo Testamento:

1)
"Entreis em tentação" (Mt 26.41).
2)
"Hora da provação" (Ap 3.10)

1. Entrar em tentação"

O que é que Jesus quis dizer com estas palavras: "entrar me tentação"? Começaremos a responder, considerando duas respostas muito comuns, no entanto erradas.

a)"Entrar em tentação" - simplesmente significa "sermos tentados"

Esta resposta está errada porque Deus nunca nos prometeu que estaríamos completamente livres da tentação. Jesus não iria nos ensinar a orar por alguma coisa que Deus não nos daria. Algumas tentações podem ser evitadas, mas nesta vida é impossível escaparmos totalmente da tentação. "Entrar em tentação" é uma experiência mais perigosa do que meramente sermos tentados.

b) "Entrar em tentação" significa sermos vencidos pela tentação.

Esta resposta também está errada porque uma pessoa pode "entrar em tantação" e, contudo, não ser derrotada pela tentação. José experimentou um período no qual "entrou em tantação (Gn 39.6-12), porém saiu dele triunfante.

Em 1Tm 6.9 Paulo assemelha "entrar em tantação" com cair em cilada. A idéia principal de cairmos em celada é de que nós não podemos facilmente escapar dela. Em 1 Coríntios 10.13 - Paulo usa a expressão "não vos sobreveio tentação". Esta expressão tem por finalidade ilustar o poder da tentação e a dificuldade em se escapar dele. Em 2 Pe 2.9 - Pedro destaca para nós o poder de certas tantações. Só podemos escapar de tais tentações com a ajuda do poder superior de Deus.

Desta referência concluímos que "entrar em tantação" significa experimentar em grau incomum o poder sedutor da tentação. Às vezes, a tentação é como um vendedor batendo a porta. Ele pode ser ignorado ou mandado ir embora, e ele vai. Noutras ocasiões não é tão fácil lidar com a tentação. Em tais ocasiões a tentação é como um vendedor
que já tenha colocado um pé no lado de dentro da porta. Ele não está apenas determinado a efetuar uma venda dos seus produtos, mas ele os apresenta de forma muito atraente. Enquanto a tentação simplesmente "bate à porta" temos condições de ignorá-la. Quando a tentação consegue colocar um pé do lado de dentro "entramos em tentação".

Quando uma pessoa "entra em tentação" ela experimenta o poder da tentação oriundo de duas fontes

c) O poder de Satanás age de uma maneira especial vindo de fora da pessoa.

Satanás vem com mais determinação e pode do que o faz comumente ao tentar a pessoa a pecar. Às vezes ele tenta pela intimidação: isto é: "ou você peca ou... Negue a Cristo ou perderá a sua vida"! - Outras vezes ele tenta oferecendo alguma coisa desejável para a pessoa, como por exemplo: "Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares" (Mt 4.9).

d) O poder do pecado que habira em nós age de um modo especial a partir do nosso interior.

A pecado que habira em nós poder ser comparado a um traidor que vive no coração da pessoa. Este traidor colabora com o tentador e procura nos encorajar a ceder a tentação. Nessa tentação o cristão pode clamar a Deus pedindo livramento muitas vezes e ainda assim não ser liberto. A tentação continua fazendo suas exigências. Essas tentações geralmente ocorrem em uma ou outra das seguintes circunstâncias:

i) Quando satanás recebe permissão especial de Deus, por razões que somente Deus conhece, para levar o cristão a "entrar em tantação" (2Sm 24.1; 1Cron 21.1; Jó 1.12; 2.6; Lc 22.31).

ii) Quando os desejos maus de uma pessoa acolhem uma oportunidade favorável e meios altamente desejosos para se concretizarem. Essa foi o caso de Davi como nos é relatado em 2 Samue11.

2)"A Hora da Provação"

Quando uma ou outra destas circunstâncias ocorrem uma pessoa entra em tantação ou, como é denominado em Ap 3.10 - na "hora da provação". Nessa ocasião o poder cativador da tentação alcança o ápice da sua força. É nesse momento que a tentação é mais perigosa e tem maior probabilidade de vencer qualquer resistência que se lhe oponha. Muitas tentação nunca alcançam esse ponto e são conquistadas sem dificuldade. Quando a mesma tentação ocorre na "hora da provação" ela tem uma nova força. A não ser que graça especial seja concedida ela conquistará a alma e a levará ao pecado. Provavelmente Davi foi tentado a adulterar e a matar nos dias da sua mocidade (por exemplo - no caso de Nabal, segundo 1 Sm 25), mas não foi senão na sua "hora da provação" que estas tentações em particular com tal força e urgência que o sobrepujaram (2Sm 11)

A não ser que uma pessoa esteja especialmetne preparada para uma hora como essa, ela certamente cairá sob a tentação. Há mais duas questões sobre a "hora da provação" que precisam ser consideradas.

a) Quais são os meios comumente utilizados para levar a tentação a esta sua hora?

i) Quando a intenção de satanás é levar a pessoa a entrar em tantação, ele freqüente e persistentemente traz a tentação específica à lembrarça da mente. Ele procura entorpecer nossas mentes para a pecaminosidade da tentação, tentando mais e mais. No momento da primeira tentação a nossa mente podeter ficado horrorizada, contido na medida em que a tentação persiste, o sentimento de horror se enfraquece e a tentação já não parece ser tão má como a princípio.

ii) Se um cristão vê seu irmão cair em pecado, ele deveria de pronto odiar o pecado, sentindo compaixão pela que da do irmão e orando por sua libertação. Se ele não proceder dessa maneira, satanás irá se valer desta fraqueza para levá-lo a mesma tentação. Quando Himineu e Fileto se afastaram da verdade, outros também caíram do mesmo modo (2Tm 2.17,18).

iii) O mal de uma tentação pode ficar escondido pela introdução de outras considerações (considerações que muitas vezes são por si mesmas boas). Por exemplo, a tentação par que os gálatas caíssem da pureza do evangelho se fazia acompanhar da promessa de ficarem livres da perseguição. O desejo de escaparem da perseguição acrescentou poder à tentação de se afastarem da pureza do evangelho.

b) Como podemos saber que chegamos à hora da provação?

i) Quando satanás conduz uma pessoa à hora da provação, isso pode ser detectado por sua pressão insistente. É como se satanás soubesse que é "agora ou nunca" - e ele não dará descanso à alma. Numa guerra, se o inimigo conquistar alguma vantagem, ele redobrará os seus esforços. Da mesma maneira, quando satanás tem enfraquecido a determinação de um cristão de resistí-lo, ele se vale de todos os seus poderes e de todos os seus ardis para conquistá-lo e persuadi-lo a pecar. Sempre que a tentação pressionar de todos os lados (interior e exteriormente) para conseguir o consentimento da vontade para pecar, poder ter a certeza de que a "hora da provação" chegou.

ii) Quando a tentação combina o poder do medo com o poder da atração, chegou a "hora da provação". Toda a força da tentação consiste na combinação destes dois poderes. Cada um desses poderes, por si só, geralmente basta para levar a pessoa a pecar. Agindo juntos eles raramente falham. Encontramos esses dois poderes em ação no caso do assassinato de Urias por Davi. Davi tinha medo que Urias se vingasse na própria esposa (para não mencionar a possibilidade de Urias procurar vingar-se no próprio Davi), e de que seu pecado se tornasse público. Tudo isso foi associado a atração do prazer que ele usufruiria pecando com Bete-seba. Quando uma pessoa está ciente de estar sentindo a força destes dois poderes procurando persuadi-la a pecar, então chegou a hora da provação.

Estamos agora prontos a darmos atenção resumidamente ao assunto que ocupará o nosso interesse até o fim deste livro.

Para evitar ser ferido por uma experiência de tentação como essa, o cristão precisa aprender a "vigiar e orar"

Vigiar significa estar alerta, precaver-se, considerar todas as possibilidades e todos os meios de que o inimigo de nossas almas possa utilizar par nos derrotar pela tentação. Isso significará uma vigilância consistente e diligente das nossa almas, valendo-nos, para tanto, de todos os meios que Deus tem colocado a nosso dispor para essa finalidade. De modo particular, há de incluir um estudo durante toda nossa vida das estratégias do inimigo e de nossas forças e fraquezas que satanás poderia explorar para nos enredar no pecado.

Além de vigiarmos, precisamente orar. Este é o meio pelo qual podemos receber a ajuda de Deus para vigiarmos como devemos e desse modo resistir aos ataques de satanás. Todo o labor da fé para guardar nossas almas da tentação se resume nestes dois deveres - "vigiar e orar".
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Quinta-feira, Julho 20, 2006

Advertência de Cristo sobre a Tentação.

Os discípulos se sentiam seguros, embora o perigo estivesse rondando por perto!Foi nessa circunstância que o Senhor fez esta advertência"vigiai e orai, para que não caiais em tentação" [Mat 26.41; Mc 14.38; Luc 22.46]. Cada discípulo de Cristo precisa da mesma advertência. Esta advertência contém três lições básicas que cada cristão precisa aprender realmente bem.

1) Cada cristão precisa estar constantemente alerta para a tentação.

2) "Cair em tentação" é experimentar a tentação na sua forma mais poderosa e perigosa.

3) Para evitar que venha a ser atingido por uma experiência de tentação, o cristão precisa aprender a "vigiar e orar".

Antes de estarmos prontos para qualquer uma destas lições, pecisamos examinar o ensino básico da Bíblia sobre a tentação. Na Bíblia vemos dois tipos diferentes de tentação. Há um modo bom de tentação que Deus usa; há um tipo mau que satanás utiliza. A tentação é como um cutelo. Ele tanto pode ser usado para um propósito bom como para um propósito mau; pode ser usado para cortar carne que um homem come, ou para cortar a garganta dele.

1. O BOM TIPO DE TENTAÇÃO QUE DEUS USA.

Às vezes a Bílbia usa a palavra tentação para significar teste ou provação (Nota - apenas as traduções modernas - usam a palavra "teste" ou "provação" ao invés de "tentação" - quando se refere a atividade de Deus) - Abraão foi testado por Deus (Gn 22.1ss) e de um modo ou de outro todos os cristãos estão sujeitos a provações ou testes (por ex. Tg 1.2 e 1Pe 1.6).

Há dois pontos importantes a serem observados em relação a essas provações.

Nota 1 -
O propósito de Deus ao enviar as provações

a) As provações ajudam o cristão a conhecer sua saúde espiritual.

Ás vezes a experiência de uma provação revelará ao cristão vertudes espirituais que Deus está produzindo na sua vida. A provação de Abraão mostrou como sua fé era forte. Freqüentemente a provação mostrará ao cristão certos males no seu coração dos quais ele antes não tinha tomado consciência. Deus provou Ezequias e lhe revelou o orgulho do seu coração (2Cr 32.31). Ocasionalmente os cristãos precisam ser encorajados
por verem graças espirituais operando em suas vidas. Noutras ocasiões cristãos precisam ser humilhados tomando consciência de males ocultos nos seus corações. Deus cuida destas duas necessidades por meio da utilização de provações adequadas.

b) As provações ajudam o cristão a conhecer mais a respeito de Deus

i) É só Deus que pode guardar o cristão para que ele não caia em pecado. até sermos tentados pensamos que podemos lidar com a tentação mediante as nossas próprias forças. Pedro pensou que ele nunca negaria o seu Senhor. A tentação lhe mostrou que O negaria (Mt 26.33-35; 69-75).

ii) Quando compreendemos nossa fraqueza e o pode da tentação, estamos em condições de descobrir o pode da graça de Deus. Esta foi a grande lição queu o apóstolo Paulo aprendeu por meio do seu "espinho na carne" (2Cor 12.7-10).

Nota 2 - Deus despõe de muitas maneiras para testar o Seu povo

Deus testa cada cristão de uma maneira muito pessoal. Aqui estão três exemplos dos métodos que Deus usa para testar o Seu povo.

a) Ele os testa dando-lhes deveres que estão acima de seus próprios recursos

O apóstolo Paulo se refere a tais testes quando escreve: "...a tribulação... foi acima das nossas forças" (2Co 1.8). Este foi o teste que o Senhor usou paa ensinar Paulo Paulo a "que não confiemos em nós, e, sim, no Deus que ressuscita os mortos" (2Co 1.9). Os cristãos não devem ficar surpresos ou desanimados se Deus lhes der uma tarefa que parece estar além das suas capacidades. Desta maneira Deus testa os cristãos, para lhes mostar se sua fé no poder de Deus é forte ou fraca.

b) Ele testa os cristãos permitindo que sofram por sua fé

Ás vezes o sofrimento severo chegando mesmo até a morte. Tal sofrimento é uma provação que a maior parte dos cristãos teme. Muitoss deles, porém, têm encontrado forças inesperadas que lhes têm sido concedidas para suportarem torturas ou até mesmo a própria morte por amor a Cristo. Todos os cristãos são chamados para apóstolo Pedro denomina tais sofrimentos de "provo da vossa fé" (1Pe 1.7).

c) Ele testa os cristãos permitindo que se degrontem com falsos mestres ou com um falso ensino

Deus testa a lealdade e o amor do cristão por Ele desta maneira. Deuterômio 13.1ss nos dá um exemplo deste tipo de provação.

Esses são três exemplos da variedade de métodos que Deus emprega para testar o Seu povo. Este tipo de provação que Deus usa tem sempre em vista o bem do Seu povo. Estamos agora em condições de nos voltarmos pra o tipo de tentação que satanás emprega.

2. O TIPO MAU DE TENTAÇÃO QUE SATANÁS USA.

Os dois tipos de tentação contém a idéia de provação. A tentação sempre é uma provação. O propósito da tentação que satanás usa é ponto que devemos lembrar. A tentação deste tipo é uma provação cujo intuito é levar a pessoa a pecar. Deus nunca é o autor deste tipo de tentação (Tg 1.13). Este é o tipo de tentação a que o Senhor se referia quando advertiu os discípulos. É este tipo de tentação que iremos estudar.

A Bíblia ensina que há três razões principais para este tipo de tentação. Às vezes estas causas agem conjuntamente; outras vezes em separado.

Primeiro - O diabo é um tentador

Duas vezes no Novo Testamento o diabo, ou satanás, é chamado de "o tentador" (Mt 4.3; 1Ts 3.5) Às vezes o diabo tanta um cristão a pecar colocando pensamentos maus ou blasfemos em sua mente. Outras vezes há tentação para duvidar da realidade de Deus ou da verdade da Sua Palavra. Esta tentação freqüentemente vem por meio de maus pensamentos introjetados na mente pelo diabo. As tentações deste tipo são geralmente denominadas de "dardos inflamados do inimigo" (Ef 6.16). O cristão não é culpado de pecado por causa destes pensamentos que vêm a sua mente. O cristão só é culpado de pecado se acolher estes pensamentos.

Mais freqüentemente o diabo tenta valendo-se de duas outras maneiras:

Segundo - O mundo (incluindo pessoas mundanas) é um tentador.

Um pescador usa como isca um verme saboroso para apanhar o peixe. Da mesma maneira o diabo freqüentemtente usa como isca alguma coisa atraente do mundo para persuadir a pessoa a pecar. Quando o diabo tentou Cristo, ele usou os reinos deste mundo como a sua isca. Foi uma criada que tentou Pedro a negar o Seu Senhor (Mat 26.69). O mundo com suas coisas e pessoas é uma fonte constante de tentação para os cristãos.

Terceiro - A carne (ou seja, os desejos egoístas) é um tentador

Às vezes o diabo age por intermédio dos desejos de uma pessoa para tentá-la. O diabo tentou Judas a trair o Seu Senhor valendo-se tanto da ajuda do mundo (ou seja, os fariseus e trinta peças de prata, Mat 26.14-16) como da própria natureza ambiciosa de Judas. Nas palavras de Tiago: "cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz" (Tg 1.14).

O tipo de tentação usado pelo diabo é sempre uma tentativa de persuadir uma pessoa a pecar. Tal tantação visa persuadir a pessoa a pecar de alguma, ou de muitas maneiras que se seguem: negligenciando os deveres que Deus lhe deu; alimentando o mal no seu coração; permitindo que satanás extraia o mal do seu coração; permitindo que de alguma maneira satanás o atraia afastando-o da comunhão com Deus; deixando de dar a Deus a obediência constante, plena e universal que Ele exige (incluindo o modo como essa obediência é prestada).

Estamos agora em condições de dedicar alguns pensamentos à primeira das três lições básicas que mendionamos no início.

Cada cristão precisa estar constantemente vigiando contra a tentação. Ilustraremos os perigos da tentação satânica sob dois pontos:

a) O grande mal que a tentação de satanás pode causar ao cristão

Um dos principais alvos da tentação é levar a pessoa a pecar. Pode ser um pecado de praticar o que Deus proíbe. Pode ser um pecado de não praticar o que Deus determina. Pode ser um pecado da carne que pode ser visto por outros. Pode ser um pecado da mente que só Deus vê. Qualquer que seja o pecado, jamais devemos esquecer que o alvo da tentação é prejudicar a saúde espiritual do cristão.

b) A grande variedade de tentações que satanás usa contra um cristão

Qualquer coisa que possa nos impedir de fazer a vontade de Deus precisa ser vista como sendo uma tentação. Pode ser algo dentro de nós (isto é, algum desejo mau) ou alguma coisa ou pessoa no mundo. Qualquer coisa que provoque ou encoraje uma pessoa a pecar é um tipo de tentação. Quase todos os desejos que alguém possa ter podem ser uma fonte de tentação. Não é em si mesmo pecaminoso ter desejos tais como: uma vida tranqüila, amigos, um bom padrão de vida, uma boa reputação ( a lista não tem fim). Todas essas coisas, porém, podem se tornar em uma fonte perigosa de tentação difícil de ser resistida. Os cristãos precisam aprender a temer as tentações que se originam nessas fontes. Precisam temer tais tentações tanto quanto temeriam aquelas que levam a pecados públicos e escandalosos. Se negligenciarmos a fazer isto estaremos mais perto da beira da ruína do que imaginamos.

Quarta-feira, Maio 24, 2006

A Regeneração - John Owen

É claro que quem vive e morre não regenerado não pode ser salvo. Não há salvação da desgraça eterna para quem não foi libertado do estado de pecado. Se pudéssemos ser salvos sem a regeneração, sem a renovação das nossas naturezas, não haveria conseqüentemente a necessidade de que todas as coisas fossem criadas novamente por Jesus Cristo. Se os homens podem ser salvos estando ainda na condição maligna que nos trouxe a queda de Adão, então Cristo morreu em vão.
Jesus disse: "se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (João 3:3). Aquilo que Jesus, nesse versículo, chama de "nascer de novo", Ele chama de "nascer do Espírito" nos versículos cinco e seis, porque é somente a obra do Espírito Santo que faz esta regeneração (João 6:63; Romanos 8:11). Deus nos salva segundo a Sua misericórdia, pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo (Tito 3:5; João 1:13; Tiago 1:18; 1 João 3:9). Portanto, claro está quem faz essa obra de regeneração. Mas agora precisamos descobrir como Ele o faz e que meios utiliza.

A VISÃO PELAGIANA DA REGENERAÇÃO

Segundo o Pelagianismo Deus dá graça a todo aquele que ouve a pregação da lei e do evangelho. Os que ouvem são persuadidos a se arrependerem e a crerem por meio das promessas do evangelho e das intimações da lei. As coisas ensinadas e ordenadas na lei e no evangelho são vistas não apenas como boas em si mesmas, mas como tão absolutamente razoáveis que qualquer um as receberia alegremente se não fossem tão preconceituosos, ou escolhessem deliberadamente continuar na sua vida de pecado.
O homem tem apenas que ponderar cuidadosamente sobre essas promessas do evangelho e intimações da lei para livrar-se desses preconceitos e assim reformar a si mesmo. Quando o homem crê no evangelho e o obedece por sua livre escolha e arbítrio, recebe, então, o dom do Espírito Santo, passa a desfrutar de todos os privilégios do Novo Testamento, tem direito e faz jus a todas as promessas referentes tanto à vida presente quanto à vida futura. Assim dizem os Pelagianos.
Desse modo o homem converte a si mesmo, e assim ficam de fora a graça do nosso Senhor Jesus Cristo e a obra de regeneração do Espírito Santo. Tudo o que se precisa é a capacidade de persuadir o homem a se arrepender do seu pecado e a crer e a obedecer ao evangelho.
Vamos agora olhar mais de perto o cerne dessa doutrina do Pelagianismo, ou do livre-arbítrio.
Como é que alguém é convencido a desistir do mal e a fazer o bem, segundo o Pelagianismo? A pessoa é persuadida pelas doutrinas, mandamentos, promessas e intimidações da Palavra de Deus. O principal meio pelo qual a Palavra de Deus é trazida às almas dos homens é o ministério da Igreja. A pregação da Palavra de Deus é o único meio ordinário exterior que o Espírito Santo usa na regeneração do adulto. Essa pregação da Palavra de Deus é, como meio exterior, suficiente o bastante para trazer alguém ao arrependimento e à fé. A revelação de Deus e da Sua mente é suficiente o bastante para ensinar aos homens tudo o que necessitam crer e fazer, para que possam ser convertidos a Deus e comecem a obedecê-Lo.
Assim, primeiro, os homens ficam inescusáveis se não responderem à pregação do evangelho (Isaías 5:3-5; Provérbios 29:1; 2 Crônicas 36:14-16). Segundo, a regeneração resulta como resposta à Palavra pregada (2 Coríntios 4:15; Tiago 1:18; 1 Pedro 1:23).
Qual é então a natureza e o resultado de persuadir as pessoas a que sejam boas? A natureza da obra é que se ensina à mente do homem a mente e a vontade de Deus e o seu dever para com Ele. É bem verdade que o primeiro propósito da revelação divina é o de informar e iluminar a mente e nos dar a conhecer a vontade de Deus (Mateus 4:15,16; Lucas 4:18,19; Atos 26:16-18; 20:20,21,26,27). É necessário que primeiro se ensine ao homem da necessidade de regeneração e o que dele se requer quanto a isso.
Assumindo-se que a mente está iluminada e informada, então, quando a Palavra de Deus é pregada, uma poderosa obra de persuasão leva forçosamente o não-regenerado a render-se a ela e a obedecê-la. Sim, a Palavra de Deus é em si mesma poderosamente persuasiva, mas até que nasça de novo, o não-regenerado não pode e não irá ser persuadido por ela.
O não-regenerado precisa ser persuadido de que isso não são "fábulas engenhosamente inventadas" (2 Pedro 1:16). As coisas da Escritura não são meras verdades, são verdades divinas. São coisas que "a boca do Senhor o disse". Somente quando alguém nascer de novo é que irá crer nisso.
Os não-regenerados precisam ser convencidos de que as coisas pregadas são boas, amáveis e excelentes. Precisam ser convencidos de que somente a fé em Deus pode levá-los à máxima felicidade. Precisam ser convencidos de que a única forma de serem aceitos por Deus e o único modo pelo qual Ele se reconciliará com eles, é através da fé na morte sacrificial do Seu Filho. Eles devem ser convencidos da pecaminosa depravação das suas almas e da sua total incapacidade para fazerem qualquer bem aceitável a Deus, sem que primeiro nasçam de novo pelo Seu Espírito. Todas essas verdades são verdades divinas, e, portanto, ao ouví-las a pessoa precisa ser convencida de que foram reveladas por alguém que tem autoridade divina. Não apenas a mente precisa ser persuadida, mas o coração também precisa ser despertado a desejar e a querer sinceramente aceitar essas coisas para a salvação.
Dizem os Pelagianos que se a pregação da Palavra de Deus for feita com grande eloqüência e competência oratória, os homens então, serão persuadidos a se arrependerem e a crer. Paulo, contudo, rejeita completamente isso no seu ministério. Ele diz: "A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder" (1 Coríntios 2:4). Alguns tentam alegar que as palavras "do Espírito e de poder" implicam que a capacidade de Paulo fazer milagres era acessório para convencer os homens. Mas isso vai contra todo o ensinamento dele nesse mesmo capítulo e também contra a concordância dos melhores expositores.

A verdadeira eficácia da pregação não está na esperteza da capacidade retórica dos homens, nem em poder corroborar a pregação com milagres, mas em duas coisas:
(1) É necessário que a pregação seja instituída por Deus. Ele ordenou a pregação da Sua Palavra como o único meio exterior para a conversão das almas dos homens (1 Coríntios 1:17-20; Marcos 16:15,16; Romanos 1:16).
(2)
O poder que torna a pregação eficaz no coração dos homens para a salvação deles está exclusivamente nas mãos de Deus. Para algumas pessoas a pregação faz-se eficaz para a salvação, para outras, para perdição. Deus também concede aos Seus pregadores, àqueles a quem designou, capacidades e dons espirituais essenciais para pregar a Sua Palavra (Efésios 4:11-13). Assim, pois, a capacidade para persuadir a que se arrependam e creiam no evangelho por meio da pregação repousa na vontade soberana de Deus.
Os Pelagianos e todos os que crêem que os pecadores devem em primeiro lugar se arrepender e crer antes de nascer de novo, dizem que a única obra que o Espírito Santo faz na pregação é convencer a mente natural e não convertida pela apresentação de motivos, argumentos e razões, e que é somente por isso que o pecador é convencido e persuadido a arrepender-se. O pecador, portanto, arrepende-se e crê por seu livre-arbítrio e decisão.
Já mostramos, no entanto, que a mente humana é tão corrompida e depravada que, se a pregação não for acompanhada do poder regenerador do Espírito Santo, nenhum pecador será persuadido a arrepender-se e a crer. O meio exterior para a conversão é, portanto, a pregação da Palavra de Deus. A regeneração é a operação interior necessária para persuadir os homens a responderem à pregação; é uma obra transformadora, não um mero convencimento produzido nas almas dos homens pelo Espírito Santo, como iremos demonstrar agora.
Se o Espírito Santo não faz nada além de apresentar razões, argumentos e motivos para a conversão, a vontade da pessoa não-regenerada permanecerá insensível. Se depender do não-regenerado arrepender-se e crer antes que o Espírito Santo faça a Sua obra de regeneração, isso nega, conseqüentemente, que a salvação procede da soberania de Deus.
É bem verdade que a vontade do não-regenerado pode resistir e recusar o evangelho e a graça que acompanham sua pregação. Mas é falso afirmar que Deus seja incapaz de efetuar em nós uma obra de graça que não pode ser resistida (irresistível) e que conduzirá infalivelmente à conversão. É falso afirmar que esta obra da graça que Deus pode operar em nós pode ser resistida e rejeitada. É falso dizer que a vontade do não-regenerado pode ou não fazer uso dessa graça de Deus, segundo o seu querer. É falso concluir que a capacidade para se converter pertence tão-somente ao pecador, e que Deus não pode regenerar e trazer o pecador à conversão sem que este primeiro lhe dê a sua aprovação. Isso é Pelagianismo.
Tais coisas são falsas porque concedem a nós mesmos toda a glória pela nossa regeneração e conversão, e não à soberana graça de Deus. Também são falsas porque deixam ao homem a decisão de quem vai para o céu ou não. A despeito do propósito de Deus em salvar, e a despeito da encarnação e redenção de Cristo, ninguém poderia ser salvo e Deus teria frustrados e desapontados Sua soberana vontade e propósito.
Tais coisas são falsas porque este ensinamento é contrário à Escritura, a qual nos afirma que a conversão, do começo ao fim, depende da graça de Deus (Filipenses 2:13). Deus opera em nós o querer a conversão, e a realiza pelo Seu soberano poder.
Se a regeneração nada mais for que convencer alguém a ser bom, então nenhum fortalecimento sobrenatural e real foi concedido à alma, não obstante os preconceitos tenham sido removidos da mente. Segundo essa doutrina o homem não necessita de tal poder sobrenatural, pois tem sido capaz em si mesmo, pelo poder da sua própria vontade, de sobrepujar a sua natureza depravada, pecadora e corrupta, de remover todos os erros e preconceitos da sua mente e de elevar-se a uma tal santidade de vida que se torna completamente aceitável a Deus. Esse é o poder do livre-arbítrio no qual alguns têm crido e ensinado. Tais pessoas negam que o homem precisa primeiramente nascer de novo antes que possa fazer qualquer coisa que seja agradável e aceitável a Deus.
Alguns ensinam que a graça de Deus ilumina a mente, e tudo o que o homem precisa fazer é escolher o bem que a graça de Deus lhe apresentou, que essa graça então irá operar juntamente com a sua escolha e vontade trazendo assim um novo nascimento à alma. Mas tudo o que a graça de Deus faz aqui é iluminar a mente, instigar os desejos e auxiliar à vontade, e isso apenas para convencer a pessoa a arrepender-se e crer. Não se concede à alma qualquer poder verdadeiro. A vontade é deixada completamente livre para cooperar ou não com essa graça, conforme arbitrar. Isso nega também toda a graça de Cristo e torna-a totalmente inútil para a salvação. Atribui ao livre-arbítrio do homem a honra da sua conversão. Faz com que o homem dê a luz a si mesmo, o que não tem o menor sentido. Destrói a analogia entre a obra do Espírito Santo ao formar o corpo natural de Cristo no ventre [da mulher] e a obra do Espírito Santo ao formar Seu copor místico na regeneração. Torna a obediência e o ato de viver para Deus, meras atitudes humanas naturais, e não conseqüência da mediação de Cristo. Não concede ao Espírito de Deus maior poder em nos regenerar do que o poder de um pregador da Palavra ou de um orador que, loquaz e emotivamente, convence alguém a se voltar do mal para fazer o bem.
Não oramos a Deus por nada exceto por aquilo que Ele nos prometeu conceder. Será então que alguém ora para que Deus meramente o persuada, ou aos outros, a crer e a obedecer? Oram as pessoas para serem convertidas ou para converterem a si mesmas? A Igreja de Deus tem orado sempre para que Deus opere essas coisas em nós. Os que estão verdadeiramente preocupados com as suas almas oram para que Deus os traga ao arrependimento e fé verdadeiros, para que Ele opere essas coisas graciosamente em seus corações. Oram para que lhes conceda fé por causa de Cristo e que a faça crescer neles e que Ele possa neles operar, pela sublime grandeza do Seu poder, o querer e o realizar segundo o Seu bel-prazer.
É contrário a toda experiência cristã pensar que por meio de todas essas orações, e com todos os exemplos de oração que a Escritura nos dá, nada mais desejamos senão que Deus nos persuada, anime e instigue a agir por nossa própria capacidade e habilidade a produzir as respostas às nossas orações por nossos próprios esforços. Orar fervorosa e importunamente com zelo ardente por aquilo que o homem mesmo é bem capaz de fazer, e que não pode ser feito a menos que ele queira por sua própria e livre escolha, é ridículo. Zombam de Deus os que oram para que Ele lhes faça aquilo que podem fazer por si mesmos. Suponha-se que o homem tenha a capacidade de crer e arrepender-se. Suponha-se que a sua capacidade para crer e se arrepender dependa tão-somente do seu livre-arbítrio e que Deus não pode, por Sua graça, operar nele, exceto persuadí-lo a que se arrependa e creia, e a apresentar-lhe boas razões pelas quais ele deva assim proceder; que propósito haveria em orar a Deus? Para que pedir a Deus que lhe conceda fé e arrependimento?
É por muitos acharem que têm em si mesmos o poder de crer e de se arrepender quando assim o quiserem, que se pensa que as orações cristãs são inúteis e tolas.
Contudo, é tão fácil persuadir alguém a regenerar a si mesmo, convencendo a si mesmo a se arrepender e a crer, quanto o é persuadir um cego a ver, ou um aleijado a andar normalmente, ou um morto à levantar-se da sepultura.
Conclusão da visão pelagiana. A regeneração não é a obra do Espírito Santo em convencer pecadores a que se arrependam e creiam.

COMO SE DÁ A REGENERAÇÃO

O Espírito Santo usa a lei e o evangelho quando regenera alguém. Não ocorre apenas uma obra moral, há também, na regeneração, a atuação direta do Espírito na mudança da natureza, nas mentes ou almas dos homens. É nisso que devemos persistir, senão toda a glória da graça de Deus perde-se, e a graça que nos chega por meio de Cristo será negligenciada. Paulo fala-nos a respeito dessa obra direta do Espírito: "para saberdes qual é (...) a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos" (Efésios 1:18-20). Ao poder aqui citado atribui-se uma sobreexcelente grandeza, pois foi por meio dele que Cristo ressurgiu fisicamente dos mortos. Paulo queria que soubéssemos que o mesmo poder supremo que Deus exerceu em Cristo ao ressuscitá-Lo de entre os mortos é o mesmo poder sublime que o Espírito Santo exerce em nós, na regeneração, ao nos fazer ressuscitar da morte espiritual para a vida espiritual. Por esse mesmo supremo poder somos guardados por Deus para o dia da salvação. É por causa da operação contínua desse poder soberano nos cristãos que eles são guardados de caírem de modo a se perderem eternamente.
Está escrito que, em nós, Deus cumpre "todo o desejo da Sua bondade, e a obra da fé com poder" (2 Tessalonicenses 1:11; 2 Pedro 1:3). Assim pois, a obra da graça na conversão é chamada pela Escritura de criação, vivificação, formação, doação de um novo coração. Tudo isso demonstra que uma verdadeira obra é realizada nas almas dos homens. E todas essas atividades são atribuídas a Deus. É Deus que, pela Sua vontade, nos recria, nos vivifica e nos gera novamente. Mas quando a regeneração é-nos imputada, tais atividades se expressam passivamente. Somos criados em Cristo Jesus. Somos feitos novas criaturas. Somos nascidos de novo. Todas essas coisas seriam impossíveis de ocorrer se não fossem efetuadas por Deus, o Espírito Santo. A Escritura, portanto, claramente nos ensina que o Espírito Santo efetua de fato uma obra eficaz, direta e poderosa em nossas almas e mentes quando Ele nos regenera.
Essa é uma obra infalível, o que significa que Ele não comete erros em realizar a Sua obra naquele que escolhe para regenerar. Não se pode resistir a ela; é sempre vencedora. Se Deus intenta regenerar alguém, tal pessoa é regenerada e não pode de modo algum resistir à vontade de Deus quanto a isso.
Se uma obra qualquer da graça começa em alguém e não resulta na regeneração e salvação dessa pessoa, é porque Deus jamais a intentou regenerar, e portanto não efetuou nela essa tal obra.
Há aqui um importante princípio doutrinário a se aprender. Quando o Espírito Santo intenta regenerar alguém Ele remove todos os obstáculos, supera toda resistência e oposição, e produz infalivelmente o resultado que pretende.
Quando faz em nós a Sua obra de regeneração o Espírito Santo opera segundo a natureza das nossas mentes, corações e vontades, sem as subjugar, forçar ou ferir. Ele age em nossas almas segundo a Sua natureza, poder e habilidade. Eis alguns exemplos da Bíblia. "Converte-me, e serei convertido" (Jeremias 31:18). "Leva-me tu, correremos após ti" (Cantares de Salomão 1:4). Deus nos atrai com "cordas humanas" (Oséias 11:4). A obra é em si mesma descrita como persuasão. "Deus persuadirá Jafé" (Gênesis 9:27 - KJV). Tal obra é também descrita como "atrair", "seduzir". "Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração" (Oséias 2:14).Assim como nessas obras do Espírito Santo, a regeneração também em nada fere as nossas faculdades naturais. Na regeneração o Espírito Santo não causa na mente grandes e arrebatadas impressões. Nem opera em nós como fez com os profetas, por meio de especial inspiração, de modo que suas mentes e órgãos do corpo fossem não mais que instrumentos passivos, usados por Ele acima das suas condições e atividades naturais. Mas Ele opera nas mentes dos homens em e por meio das suas condições naturais, através da influência e impressão diretas causadas neles pelo Seu poder. "Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável" (Salmos 51:10). O Espírito Santo "é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar" (Filipenses 2:13). Portanto, o Espírito Santo não coage nem força a vontade. A vontade é destruída, quando forçada. Na parábola da grande ceia quando o dono da casa ordena a seus servos que tragam mais pessoas, ele diz: "sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar" (Lucas 14:23). Isso não significa, "forçai-os a entrar a contragosto", antes, pelo contrário, denota a certeza de que o convite sobrepujará ao espanto e à incredulidade deles, de que deverão ser convidados dentre todas as gentes.
Mas o arbítrio do não-regenerado está alienado "à vida de Deus" (Efésios 4:18). Isso é, está cheio e possuído de ódio contra o que é espiritualmente bom. Está em contínua oposição à vontade de Deus pois jaz debaixo do poder da mente carnal a qual é Sua inimiga (Romanos 8:7).
Contudo, apesar dessas coisas, o Espírito Santo vence toda oposição e triunfa na Sua obra. Entretanto, bem podemos perguntar, como pode isso ser feito sem que se force ou se coaja a vontade?
Na obra de conversão a Deus, a graça e a vontade reagem entre si. A princípio a graça e a vontade não-regeneradas opõem-se uma à outra. A graça, todavia, prevalece vitoriosa sobre a vontade não-regenerada e rebelde, pelos motivos seguintes.
A vontade não-regenerada opõe-se cheia de inimizade contra a graça quando lhe é apresentada pela Palavra de Deus. Desse modo os homens resistem ao Espírito, pois resistem à pregação da graça. Se tão-somente a graça for apresentada à vontade, os homens sempre lhe resistirão. A inimizade em seus corações prevalecerá contra a pregação. Mas a obra de regeneração é interior, transformadora da essência da nossa natureza. A pregação dessa obra de regeneração não está dirigida à vontade, e não pode, portanto, sofrer a sua oposição, mas opera eficazmente nela, renovando-a maravilhosamente.
No primeiro ato da conversão a vontade não quer nem deseja ser a primeira a agir para ser regenerada. Ao contrário, ela antes é renovada pela regeneração para só então desejar ou escolher. A vontade jaz passiva e inerte até que seja despertada pelo Espírito Santo na regeneração. Ocorre uma secreta operação de poder onipotente e interior que produz ou opera em nós o desejo de sermos convertidos a Deus. Tal operação age em nossa vontade de tal maneira que nós, livres e alegremente, desejamos aquilo que Deus quer que desejemos e escolhamos, que é fazer a Sua vontade.
O Espírito Santo compreende as nossas almas extraordinariamente mais do que nós jamais o poderíamos. Assim, ao efetuar em nossas almas a Sua obra de regeneração, Ele cuida delas maravilhosamente, preservando-as e, sem cercear em nada a liberdade da nossa vontade, operando nelas eficazmente a regeneração e a conversão a Deus.
Aprendemos, portanto, dois grandes princípios bíblicos:
(1) Aprendemos que o feito da conversão, mais especificamente o ato de crer, é obra exclusiva de Deus. É Ele quem opera em nós a conversão, e quem nos concede a fé.
A Escritura nada diz sobre qualquer poder concedido ao homem que o capacite a crer antes que creia.
Objeção. E quanto àquilo que Paulo diz: "posso todas as coisas em Cristo que me fortalece" (Filipenses 4:13 - ACF)?
Resposta. Se o versículo for lido cuidadosamente nada se encontrará nele que afirme que a uma pessoa não-regenerada se conceda a condição que a capacite a concretizar o seu primeiro ato de fé em Cristo. Paulo só está falando de um recurso que há nele como crente. O regenerado recorre à graça que habita o seu íntimo. O não-regenerado não possui esta graça interior.
A Palavra de Deus cria a fé
A Palavra de Deus, através de uma obra criadora, opera a fé em nós (Efésios 2:10; 2 Coríntios 5:17). A primeira obra de Deus em nós é nos capacitar a querer (Efésios 2:13). Agora, desejar crer é [o mesmo que] crer. Deus efetua isso em nós pela graça. Ele opera em nós sem a nossa ajuda, a vontade jaz passiva. Mas a vontade, em sua própria natureza, pode ser trabalhada pelo Espírito Santo que pela Sua graça a desperta para a fé e a obediência. Se Deus é capaz de restaurar a vida e a saúde a um corpo morto, muito mais pode Ele em restaurar a vontade ao seu propósito original de criação.
Alguns crêem e ensinam que a todos quantos é pregado o evangelho é concedido o poder para nele crer, conquanto assim escolham fazer. Citam Marcos 16:16 que ensina que todo o que não crê já está condenado. Mas, argumentam, que não lhes parece justo que eles sejam condenados eternamente a menos que tenham a capacidade de crer no evangelho quando este lhes for pregado.
Não há remédio para os pecados daqueles que não crêem (João 8:24). Mas a incapacidade para crer é culpa exclusiva do homem (João 12:39). Os que recusam o evangelho fazem-no por sua própria escolha (Mateus 23:37; João 5:40). A Escritura ensina claramente que os homens são totalmente incapazes de crer (João 12:39; 1 Coríntios 2:14). Não foi concedido a todos os homens conhecerem os mistérios do Reino dos Céus, mas somente a alguns (Mateus 11:25; 13:11). "A fé não é de todos" (2 Tessalonicenses 3:2). Somente os eleitos de Deus possuem fé (Tito 1:1; Atos 13:48).
Também ser-nos-ia decepcionante que a Escritura nos dissesse que Deus opera a fé em nós, se na verdade Ele não fizesse tal coisa (Filipenses 1:29; 2:13).
Jesus nos afirma que ninguém pode ir até Ele se isso não lhe for concedido pelo Pai (João 6:65). Paulo nos assevera que a fé pela qual somos salvos "não vem de vós; é dom de Deus" (Efésios 2:8). A Bíblia seria enganadora ao nos afirmar que a fé é dom de Deus para nós, não sendo ela nada disso, mas algo que podemos obter por nós mesmos.
Deus nos concede arrependimento
A Bíblia ensina claramente que Deus ao converter o pecador, pelo mesmo poder pelo qual Cristo foi levantado dos mortos, efetua nele verdadeiramente uma obra de fé e arrependimento (2 Timóteo 2:25; Atos 11:18). É arrependimento e fé verdadeiros que Deus opera em nós, não uma mera capacidade para se arrepender e crer que, ao obtê-la, podemos ou não usar segundo o nosso agrado.
(2) O segundo princípio bíblico que aprendemos é que Deus ao operar em nós a fé e o arrependimento, Ele o faz segundo Seu poder, e que tal obra, infalivelmente efetuada, não pode ser resistida pela vontade do homem. Ao obrar essa regeneração, o Espírito Santo remove todo sentimento de rejeição e vence, para Cristo e Seu evangelho, toda a resistência (Deuteronômio 30:6).
Paulo explica o que é possuir um coração circuncidado (Colossenses 2:11). É o despojamento do corpo dos pecados da carne pela circuncisão de Cristo, isto é, pela nossa conversão a Deus.
Nenhum homem jamais circuncidou o seu próprio coração. Nenhum homem pode dizer que, pelo poder da sua própria vontade, começou a fazê-lo e que Deus então o ajudou pela Sua graça. A circuncisão do coração feita pelo Espírito Santo remove a cegueira, a obstinação e a teimosia que habitam naturalmente em nós. A circuncisão do coração remove todos os preconceitos da mente e do coração que impedem e resistem à conversão. Portanto, se toda essa resistência e oposição são removidas, como pode o coração resistir à operação da graça? (Vide Ezequiel 36:26,27; Jeremias 24:7; 31:33; Isaías 44:3-5).
É certo orarmos a Deus para que faça em nós e nos outros aquilo que Ele prometeu?
Devemos orar por nós e pelos outros para que a obra da nossa conversão seja renovada, preservada e aperfeiçoada. Disse Paulo, "Estou plenamente certo de que Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus" (Filipenses 1:6).
A regeneração é obra completa e acabada, mas também é o começo da obra da santificação. Enquanto estivermos neste mundo a santificação não terá a sua obra completada e como tal, necessita de ser continuamente renovada. Santificação é levar continuamente à morte o restante do pecado que há em nós e o crescimento e o fortalecimento contínuos da graça de Deus em nós. E é certo que oremos a Deus para que efetue nos outros a mesma obra que opera em nós.
Será que Deus faz realmente em nós aquilo que Ele prometeu fazer?
Se não faz, onde estão pois a Sua verdade e fidelidade? Acaso Ele prometeu nos converter tão-somente se nos convertermos a nós mesmos? Se Deus não opera em nós aquilo que prometeu é porque Ele não pode ou porque não quer. Mas nada disso pode-se dizer de Deus.
O alvo dessas promessas é o coração. Antes da operação da graça o coração está "petrificado". Ele pode fazer o tanto que uma pedra faz para agradar a Deus. Um coração petrificado é obstinado e teimoso. Mas Deus diz que vai extirpar esse coração (Ezequiel 11:19). Ele não diz que vai tentar fazer isso, nem que nos dará algum poder de modo que o possamos por nós mesmos, mas que Ele vai tirá-lo fora. Quando Deus diz que o vai tirar, isso significa que Ele infalivelmente o tirará e que nada O pode impedir de o tirar. Ele nos promete dar um novo coração e um novo espírito. "Dar-vos-ei coração novo e um novo espírito". (Ezequiel 36:26). Ele faz isso para que O temamos e andemos em Seus caminhos. Ele prometeu escrever a Sua lei em nossos corações. Isso simplesmente indica que Ele colocará dentro de nós a capacidade de andar em obediência diante dEle (e.g., Atos 16:14).

A graça da regeneração

A regeneração é chamada de "ressurreição" ou "dar vida" (Efésios 2:5; João 5:25; Romanos 6:11). A obra é em si mesma a nossa regeneração (Efésios 4:23,24; João 3:6).

O Espírito Santo atua na mente - Ele concede entendimento (1 João 5:20). Por causa do pecado o homem tornou-se como os animais, sem entendimento (Salmos 49:12,20; Jeremias 4:22; Romanos 3:11). Davi ora por entendimento (Salmos 119:34), Paulo ora em prol dos crentes para que experimentem a revelação de Cristo (Efésios 1:17,18). Ele com isso quer significar iluminação subjetiva para que sejamos capacitados a compreender aquilo que está revelado, não novas revelações objetivas. Paulo não orou para que os crentes de Éfeso recebessem novas revelações.
Existe um "olho" no entendimento do homem. Olho que consiste da capacidade de ver as coisas espirituais. Algumas vezes se diz que é cego, que está em trevas, que está fechado. Tais descrições nos ensinam que a mente natural não pode conhecer a Deus pessoalmente para salvação, e é incapaz de ver, isto é, de discernir as coisas espirituais. Abrir esse olho, é obra do Espírito da graça (Lucas 4:18; Atos 26:18). Ele primeiramente faz isso ao nos conceder o Espírito de sabedoria e revelação. Em segundo lugar nos dá um coração para conhecê-Lo (Jeremias 24:7).
Há, portanto, na conversão um ato eficaz, poderoso e criativo do Espírito Santo sobre e nas mentes dos homens, que os capacita a ver ou discernir as coisas espirituais de forma espiritual. É o que se chama de renovação das nossas mentes (Efésios 4:23; Colossenses 3:10; Romanos 12:2; Tito 3:5). Por meio dela é que Deus concede luz às nossas mentes (2 Coríntios 4:6).

O Espírito Santo atua na vontade.

A expressão "morto em pecados" refere-se à vontade naturalmente corrompida do não-regenerado. Essa vontade deve ser considerada de duas maneiras. Pode ser vista como a faculdade vital e racional das nossas almas, ou pode ser vista como um livre e governante princípio, sendo a liberdade a sua essência ou natureza.
É esta vontade, portanto, que é restaurada pelo Espírito Santo na nossa conversão. O Espírito Santo implanta nela um novo princípio de vida espiritual e santidade.
Se o Espírito não operar direta e eficazmente sobre a vontade, se não criar na vontade um novo princípio governante de fé e obediência, se não determinar infalivelmente todos os livres atos da vontade, então, toda a glória da nossa conversão recai sobre nós. Seria, então, pelo arbítrio da nossa vontade livre e obediente ao evangelho que nos tornaríamos diferentes dos demais que não atendem ao evangelho. Todas as afirmações desse tipo vão contra o ensinamento de Paulo (1 Coríntios 4:7).
Se é pelo nosso livre-arbítrio que somos salvos, então o propósito de Deus de converter uma mera alma poderia ser frustrado. Deus pode determinar a salvação de uma alma, mas depois que Ele fez tudo o que deveria ser feito ou poderia ser feito, se, todavia, a vontade [do homem] permanecer imutável, e Deus nada pode fazer para renovar essa vontade, tal alma não será convertida. Assim é frustrado o desígnio de Deus. Isso é contrário aos testemunhos de Cristo (Mateus 11:25,26; João 6:37; Romanos 8:29). Se for possível ninguém crer nEle, também não podem ser infalivelmente cumpridas as promessas de Deus a Jesus quanto ao grande número de pessoas que haveriam de nEle crer. Tudo então dependeria da livre e indeterminada vontade do homem, se ele cresse ou não em Jesus Cristo, e a salvação seria "de quem quer" e "de quem corre" e não de Deus que tem misericórdia de quem lhe apraz ter misericórdia (Romanos 9:14,15). Assim pois, fazer o propósito de Deus salvar pelas graça depender das vontades dos homens não é consistente com o sermos "feitura dEle, criados em Cristo Jesus" (Efésios 2:10). Diante dessa suposição, os homens nem sabem pelo que oram quando oram a Deus pela conversão de si mesmos ou de outros.
Assim pois, uma tal obra do Espírito Santo em nossas vontades é necessária para que sejam curadas e se lhes extirpe a corrupção. A vontade deve ser libertada do estado de morte espiritual para ser capacitada a viver para Deus; deve ser renovada e submetida a um novo princípio governante de fé e obediência.

O Espírito Santo nos torna nova criaturas
Tudo isso é obra do Espírito Santo. Ele nos traz à vida; nós que estávamos mortos em nossos delitos e pecados. Dá-nos um novo coração e põe em nós um novo espírito. Escreve a Sua lei em nossos corações para que possamos conhecer e executar a Sua vontade e assim andar em Seus caminhos. É Ele quem opera em nós o querer e o efetuar da Sua boa vontade. Quem transforma os outrora mal dispostos e obstinados em solícitos e obedientes, e isso pela livre escolha e vontade deles mesmos.
Desse mesmo modo implanta em nossos corações um prevalecente amor a Deus, que faz as nossas almas se apegarem a Ele a aos Seus caminhos com gozo e satisfação (Deuteronômio 30:6; Colossenses 2:11).
Por sua própria natureza o coração é depravado de tal forma que a mente e a vontade buscam atender à concupiscência que nele há (Gálatas 5:24; Tiago 1:14,15). Mas o Espírito Santo circuncida o coração com a sua lascívia e desejos, e enche-nos de amor santo e espiritual, alegria, temor e gozo. O Espírito Santo não modifica a essência de nossos desejos mas santifica-os e guia-os com Sua luz salvadora e com o Seu conhecimento. Assim Ele associa os desejos ao seu objeto apropriado que é Cristo.

Conclusão.

Nas Escrituras a salvação é atribuída diretamente a Deus ou especificamente ao Seu Espírito (1 Pedro 1:3; Tiago 1:18; João 3:5,6,8; 1 João 3:9). As Escrituras excluem a vontade do homem de qualquer parte ativa na regeneração (1 Pedro 1:23; João 1:13; Mateus 16:17; Tito 3:5; Efésios 2:9,10).

John Owen foi um grande teólogo puritano do século XVII; foi vice-reitor da Universidade de Oxford e conselheiro de Oliver Cromwell. Foi chamado de "O Príncipe dos Puritanos".

Quarta-feira, Abril 19, 2006

E vimos sua glória...

O Sumo sacerdote do Velho Testamento, após fazer os sacrifícios que eram exigidos, no dia da expiação, entrava no lugar santo com as suas mãos cheias de incenso perfumado que ele colocava no fogo diante do Senhor. Da mesma forma, o grande Sumo Sacerdote da Igreja, o nosso Senhor Jesus Cristo, tendo se sacrificado pelos nossos pecados, entrou no céu com o doce perfume de Suas orações pelo Seu povo. O seu eterno desejo para a salvação do Seu povo é expresso por João: "Para que vejam a minha glória" (Jo 17.24). José pediu a seus irmão que contassem a seu pai sobre toda a sua glória no Egito (Gn 45.13), não para dar uma amostra ostensiva daquela glória, mas para dar a seu pai a alegria de saber a sua alta posição naquela terra. Da mesma forma, Cristo desejava que Seus discípulos vissem a Sua glória para que pudesse estar satisfeito e usufruir a plenitude de Suas bençãos para todo sempre.
Uma vez tendo conhecido o amor de Cristo, o coração do crente estará sempre insatisfeito até a glória de Cristo ser vista. O clímax das petições que Cristo faz a favor dos Seus discípulos é que possam comtemplar a sua glória.É por isso que eu afirmo que um dos maiors benefícios para um crente no mundo e no porvir é considerar a glória de Cristo
Desde que o nome do cristão é conhecido no mundo, não tem havido tanta oposição direta à singularidade e glória de Cristo como nos dias atuais. É dever de todos aqueles que amam o Senhor Jesus de testificar, conforme suas abilidades, da singularidade de Sua glória.
Eu gostaria, portanto, de fortalecer a fé dos verdadeiros crentes ao mostar que ver a glória de Cristo é uma das maiores experiências e privilégios possíveis neste mundo ou no outro. "Mas todos nós, com a cara descoberta, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor" (2Co 3.18) Na eternidade seremos como Ele, porque O veremos como Ele é (1Jo 3.2).
Este conhecimento de Cristo é a via contínua e a recompens de nossas almas. Aquele que tem visto a Cristo também tem visto o Pai; a luz do conhecimento da glória de Deus é vista apenas na face de Jesus Cristo (Jo 14.9; 2Co 4-6).
Há duas maneiras de ver a glória de Cristo: mediante a fé, neste mundo, e, por meio da fé, no céu eternamente. É a segunda maneira que se refere principalmente a oração sacerdotal de Cristo - que seus discípulos possam star onde Ele está, para contemplar sua glória. Mas a visão de Sua glóra pela fé, neste mundo, também está incluída e eu dou as seguintes razões para isso:
1. Nenhum homem jamais verá a glória de Cristo no futuro se ele não tiver alguma visão dela, pela fé, no presente. Devemos estar preparados pela graça para a glória, e pela fé para a visão. Algumas pessoas, que não tem fé verdadeira, imaginam que verão a glória de Cristo no céu; porém estão apenas se iludindo. Os apóstolos viram a Sua glória, "e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" (Jo 1.14). Essa não era uma glória deste mundo como a dos reis... Apesar de ter criado todas as coisas, Cristo não tinha onde reclinar a cabeça. Não havia glória ou beleza incomum em Sua aparência como homem. A Sua face e Suas formas se tornaram mais desfiguradas do que as de qualquer homem (Is 52.14; 53.2). Não era possível ser vista neste mundo a glória total da Sua natureza divina. Como então os apóstolos viram a sua glória? Foi pela compreensão espiritual da fé. Quando eles viram como Ele era cheio de graça e de verdade e o que Ele fazia e como falava, eles "o receberam e creram no seu nome" (Jo 1.12). Aqueles que não tinham essa fé não viram nenhuma glória em Cristo.
2. A glória de Cristo está muito além do alcance de nossa presente compreensão humana. Não podemos olhar diretamente para o sol sem ficarmos cegos. Semelhantemente, com nossos olhos naturais não podemos ter nenhuma visão verdadeira da glória de Cristo no céu; ela apenas pode ser conhecida pela fé.
Aqueles que falam ou escrevem sobr a imortalidade da alma, sem ter conhecimento de uma vida de fé, não podem ter convicção daquilo que dizem... O entendimento que vê apenas através da fé é que nos dará uma idéia verdadeira da glória de Cristo e criará um desejo para um completo desfrute dela.
3. Entretanto, se quisermos ter uma fé mais ativa e um maior amor para com Cristo, que dêem descanso e satisfação às nossas almas, precisamos ter um maior desejo de compreender melhor a Sua glória nesta vida. Isto significará que cada vez mais as coisas deste mundo terão menor atração para nós até que se tornem indesejáveis como algo morto. Não deveríamos procurar por nada nesta vida. Se estivéssemos totalmente convencidos disso estaríamos pensando mais nas coisas celestiais do que normalmente estamos.
Vantagens que surgem de pensarmos sempre na glória de Cristo:
A. Seremos moldados por Deus para o céu. Muitos pensam que já estão suficientemente preparados para a glória, como se eles a pudessem alcançar. Mas não sabem o que isso significa. Não há o menor prazer na música para o surdo, nem nas belas cores para o cego. Da mesma forma, o céu não seria um lugar de prazer para as pessoas que não tivessem sido preparadas para ele nesta vida pelo Espírito. O apóstolo dá ",,,graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz..." (Cl 1.12). A vontade de Deus é que devemos conhecer as primícias da glória aqui e a sua plenitude no futuro. Porém, somos feitos capazes de receber o conhecimento dessa glória pela atividade espiritual da fé. O nosso conhecimento atual da glória é nossa preparação para a glória futura.
B. Uma visão verdadeira da glória de Cristo tem o poder de mudar-nos até que nos tornemos semelhantes a Cristo (2Co 3.18).
C. Uma meditação constante sobre a glória de Cristo dará descanso e satisfação ás nossas almas. Trará paz às nossas almas que tantas vezes estão cheias de medos e pensamentos perturbadores. "Porque a inclinação da carne é a morte; mas a inclinação do espírito é vida e paz" (Rm 8.6). As coisas desta vida nada são quando comparadas com o grande valor da beleza de Cristo, como Paulo disse: "E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas as coisas, e as considero como esterco para que possa ganhar a Cristo" (Fl 3.8).
D. O conhecimento da glória de Cristo é a fonte de nossa bem-aventurança eterna. Vendo-O como Ele é, seremos feitos em semelhança a Ele. (1Ts 4.17 - Jo 17.24; 1Jo 3.2)
John Owen - 1683